Gigante da história: um dos maiores exemplares de Pau-Brasil do Rio é descoberto em Realengo
- Alexandre Madruga

- Jun 9
- 3 min read
Com 16 metros de altura e idade estimada em mais de dois séculos, árvore centenária foi localizada no Núcleo Piraquara; tecnologia de drones e monitoramento ambiental foram fundamentais para o achado.

No coração de uma das maiores florestas urbanas do mundo, um verdadeiro monumento vivo da história e da biodiversidade brasileira permaneceu guardado pelo tempo. Pesquisadores localizaram, no Núcleo Piraquara do Parque Estadual da Pedra Branca, em Realengo, um dos maiores exemplares de pau-brasil (Paubrasilia echinata) já identificados no Estado do Rio de Janeiro. A árvore impressiona pelas proporções: são 16 metros de altura — o equivalente a um prédio de cinco andares — e uma circunferência de 2,35 metros. Na prática, são necessárias pelo menos três pessoas adultas de mãos dadas para conseguir abraçar o seu tronco. A estimativa é de que o exemplar tenha mais de 200 anos de idade, tendo resistido a séculos de expansão urbana e ciclos econômicos.
A descoberta histórica não foi por acaso. O gigante foi localizado durante uma atividade de monitoramento aéreo realizada com o auxílio de drones no início de maio. O responsável pelo achado foi o pesquisador Diego Monsores, coordenador de voluntariado da Trilha Transcarioca — uma rota de longo curso com mais de 184 quilômetros que corta o Rio de Janeiro. Monsores destaca que a tecnologia se tornou uma ferramenta indispensável para a preservação ambiental no século XXI:
"Utilizamos desde câmeras trap para monitoramento de fauna a drones que realizam o mapeamento aéreo da copa das árvores. O objetivo é observar, localizar e mapear espécies ameaçadas. A proposta agora é realizar a coleta de sementes e a produção de mudas desses exemplares, garantindo a preservação da diversidade genética local e fortalecendo futuras ações de restauração ecológica."
A iniciativa faz parte do projeto Pró Espécies, uma parceria entre a Trilha Transcarioca e o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que atua diretamente no mapeamento de plantas ameaçadas de extinção ao longo do corredor florestal.
Se encontrar um exemplar bicentenário já era motivo de comemoração, as matas de Realengo reservavam outra surpresa para a comunidade científica. Na mesma região, os pesquisadores mapearam uma população de aproximadamente 50 indivíduos de pau-brasil-folha-arruda-RJ, uma variação extremamente rara e exclusiva do território fluminense. Estudos recentes sobre o genoma da espécie, coliderados pelo Dr. Haroldo Cavalcante de Lima, do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, apontam que existem cinco linhagens de pau-brasil no litoral do país: norte, arruda-BA, laranja, café e arruda-RJ. Esta última só existe no Estado do Rio.
Uma pesquisa conduzida pela bióloga Patrícia da Rosa, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), confirmou a relevância ecológica do Núcleo Piraquara como um santuário genético.
"O núcleo Piraquara foi identificado como um dos poucos fragmentos de alta prioridade para conservação da linhagem arruda-RJ. Isso confirma que ainda existem remanescentes sobrevivendo em áreas urbanas, mesmo após séculos de exploração e perda de habitat", ressaltou a pesquisadora da UERJ.
Para Julia Bochner, diretora de Biodiversidade, Ecossistemas e Áreas Protegidas do Inea, a descoberta reforça o papel estratégico das unidades de conservação inseridas em grandes metrópoles.
"Essas descobertas mostram que fragmentos florestais urbanos podem desempenhar papel decisivo na manutenção de espécies ameaçadas", apontou.
Um refúgio verde entre 17 bairros
Criado pela Lei Estadual nº 2.377 em 28 de junho de 1974, o Parque Estadual da Pedra Branca possui uma área gigantesca de 12.491,72 hectares. O seu perímetro urbano estende-se por 17 bairros das zonas oeste e sudoeste da capital fluminense, incluindo desde Jacarepaguá, Barra de Guaratiba e Recreio dos Bandeirantes, até Bangu, Campo Grande e Realengo.
Gerida pelo Inea, a unidade de conservação foi originalmente desenhada para proteger mananciais hídricos, conter o avanço desordenado das cidades e salvaguardar o patrimônio histórico e arqueológico da região. Agora, com a confirmação de populações nativas e saudáveis de pau-brasil, o parque se consolida não apenas como um pulmão verde para os cariocas, mas como o guardião definitivo do código genético da Mata Atlântica.
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