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  • Foto do escritorGuilherme Sant'Anna - Psicólogo

PSICOnews | O que o seu silêncio diz?


"Quem cala, consente" é um dos ditados populares que mais me incomoda. Não gosto dele por um motivo simples: por desconsiderar os vários sentidos possíveis do se calar frente aos outros, como se ficar em silêncio fosse apenas por consentimento.


Um ditado que parte dessa ideia pode nos deixar insensíveis aos silêncios das outras pessoas, além de limitar nossa liberdade expressiva, deixando esquecido o fato de que o calar pode ter motivações diversas. Se essa problemática ainda não ficou clara, aqui vão alguns exemplos:

Na sua infância, é provável que você tenha se calado quando algum adulto te repreendeu. Talvez não por concordar, mas por simplesmente não entendê-lo, ou por raiva, medo, ou ainda por respeito.

Declarações de amor podem ter te deixado sem palavras, num silêncio de surpresa, de alegria, de acolhimento ou de estranhamento. Ofensas também podem ter te calado, por espanto, desilusão, tristeza… Alguém pode ter te desrespeitado de alguma forma e você ter ficado calada/o, mas não por consentir com tal ação, sim por um outro motivo qualquer.

Às vezes o silêncio vem por cansaço, por não querer falar com quem não ouve, para evitar discussões. Assim, mesmo que se discorde do que está sendo dito, calar é mais uma forma de responder. Noutros momentos, o silêncio acontece por falta de coragem, como quando se cala para não se comprometer e ter de assumir a responsabilidade pelo que se disse depois, ou para evitar reconhecer os próprios erros já cometidos.


É possível que você já tenha experimentado um silêncio de intimidade, como quando se fica confortável junto de alguém sem dizer nada por horas, ou melhor, dizendo em silêncio o que as palavras não dizem. Ou também o oposto, o desconforto com o silêncio que pode levar à tagarelice, quando se fala bastante em palavras, mas se diz pouco.


Seja no conforto ou no desconforto, na alegria ou na tristeza, concordando ou não, o silêncio é também um elemento de comunicação. Considerá-lo ausência de fala ou apenas consentimento é subestimar seu poder de manifestar algo. Minha prática profissional não me deixa esquecer disso. Como psicoterapeuta, faz parte da minha tarefa compreender os silêncios quando eles surgem ou faltam: existem silêncios de reflexão, de desconforto, de recordação, de autoperdão, de evitação, de aceitação, de culpa, enfim, silêncios variados que sempre comunicam.


Por isso, insisto em questionar: O que você diz quando silencia? Quais os sentidos de se calar em determinada situação? As respostas podem mostrar o próprio silêncio como algo que fala a você mesma/o e às demais pessoas, levando a uma maior compreensão de si. Finalizo o texto com um belo trecho do que o poeta libanês Khalil Gibran diz sobre o conhecimento de si próprio, no livro “O Profeta”:


Vosso coração conhece em silêncio os segredos dos dias e das noites;

Mas vossos ouvidos anseiam por ouvir o que vosso coração sabe.

Desejais conhecer em palavras aquilo que sempre conhecestes em pensamento.

Quereis tocar com os dedos o corpo nu de vossos sonhos. E é bom que o desejeis.

A nascente secreta de vossa alma precisa brotar e correr, murmurando para o mar;

E o tesouro de vossas profundezas ilimitadas precisa revelar-se a vossos olhos.


Guilherme Sant'Anna é psicólogo (CRP 05/57577) formado pela UERJ e atualmente cursa o mestrado em Psicologia Social nessa mesma universidade. Ele realiza atendimentos de psicoterapia online, se você quiser entrar em contato pode fazê-lo pelos seguintes meios:

Medium: https://medium.com/@guilhermesantannapsi Whatsapp: (21) 988021858

*Foto por Kristina Flour no Unsplash.

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