Obras de ex-colégio Souza Lima em Realengo são abandonadas após uso de R$ 14,3 milhões e há suspeita de cartel


O que deveria ser um polo de excelência educacional para pelo menos mil alunos em Realengo, transformou-se em um canteiro de obras fantasma e ameaça à saúde pública. Localizada na Rua General Sezefredo, nas antigas instalações do colégio particular Souza Lima, a futura escola cívico-militar acumula um histórico de paralisações, falhas estruturais e suspeitas de fraude licitatória, mesmo após a aprovação de R$ 14,3 milhões em despesas pelo governo estadual. Com inauguração inicialmente prevista para este ano, o cenário atual é de abandono total. Não há sinal de operários, e materiais de construção encontram-se espalhados por toda a propriedade. Inspeções realizadas pela atual gestão da Secretaria Estadual de Educação (Seeduc) constataram graves falhas no projeto e diversos serviços inacabados. O descaso gerou ainda um problema sanitário: reservatórios de água destampados tornaram-se focos de proliferação de mosquitos. A única notícia positiva resultante da vistoria técnica foi a recuperação de 12 aparelhos de ar-condicionado, encontrados trancados e abandonados em um dos cômodos do prédio.
O peso nos cofres públicos contrasta com a paralisação das obras. Do montante de R$ 14,3 milhões — que engloba R$ 4,7 milhões apenas para a desapropriação do terreno e quatro contratos firmados com diferentes empreiteiras —, praticamente tudo já foi liquidado. Apenas R$ 186 mil deixaram de ser repassados às empresas. Apesar de notificadas oficialmente pela Seeduc, as empreiteiras não retornaram ao canteiro.
Para agravar o quadro, pesam sobre o projeto fortes indícios de formação de cartel, conforme levantamento do jornal O GLOBO. Em um dos principais contratos da unidade, a licitação apresentou um padrão suspeito de propostas em formato de "escadinha". A vencedora, LLC Construções, arrematou o serviço por R$ 5,7 milhões, oferecendo um desconto de exatos 4% sobre o valor de referência estabelecido pela Emop (Empresa de Obras Públicas do Estado). Imediatamente atrás, a Top Fire apresentou um desconto de 3%, seguida pela Unidos Construções e Reformas, com 2%.
A paralisação atual é o ápice de uma série de promessas e prazos descumpridos. Em julho de 2024, a Seeduc informava que a unidade caminhava para ser integrada à rede pública e que os projetos passavam por retificações junto à empresa responsável. Em dezembro daquele ano, a secretaria alegou que os projetos reajustados haviam sido entregues após exigências técnicas e que o avanço dependia apenas de adequação orçamentária. Na mesma época, a pasta justificou que a escola ainda não figurava no calendário de matrículas por estar em fase de "estudo para o modelo cívico-militar", embora a quadra poliesportiva já estivesse concluída. Em fevereiro de 2025, o governo ainda sustentava que as obras estavam em andamento, versão que hoje desmorona diante do cenário de ruínas na Rua General Sezefredo.
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