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PSICOnews | A liberdade da vontade e especificidades humanas

Toda psicoterapia contém, em sua teoria, uma visão antropológica e uma filosofia de vida que orientam as suas abordagens técnicas e o seu olhar sobre o analisando. Para Viktor Frankl, em A Vontade de Sentido, a questão deve ser saber se a visão de mundo de uma determinada abordagem está certa ou errada. Isto significa, em suas palavras, saber se em determinada teoria “a humanidade do homem se mantém preservada ou não”.

 

“O caráter especificamente humano do homem é negligenciado, por exemplo, por aqueles psicólogos que aderem ou ao ‘modelo da máquina’ ou ao ‘modelo do rato’”, e que, consequentemente, reduzem a consciência a mero resultado de processos de condicionamento e nos termos das funções do “superego” - naquele reducionismo pseudo-científico que é também responsável, por exemplo, pela interpretação do amor como mera sublimação da sexualidade, entre outros problemas. 

 

Um dos pilares da visão antropológica de Frankl, que se esforça para alcançar uma visão mais integral da condição humana, é a liberdade da vontade, que, segundo ele, “opõe-se ao princípio que caracteriza a maior parte dos atuais saberes que se ocupam do homem: o pandeterminismo”, que tende, diante da percepção da existências de reais fatores determinantes do comportamento humano, a concluir que só há determinação, sem nenhum nível de verdadeira liberdade. Frankl esclarece: falar “de liberdade da vontade não implica, de forma alguma, um indeterminismo a priori. Afinal, a liberdade da vontade significa a liberdade da vontade humana, e esta é a vontade de um ser finito. O homem não é livre de suas contingências, mas, sim, livre para tomar uma atitude diante de quaisquer que sejam as condições que são apresentadas a ele”.

 

Trata-se de um grande mal entendido, este, que considera que falar em liberdade na vida humana significa afirmar uma total ausência de determinações. (É o equívoco, frequente, de se pensar em extremos, desconsiderando que a realidade é composta de tensões, e da articulação de diferentes elementos, tendências, pólos etc., que exigem sempre, dos seres humanos, uma combinação entre esforço e razão). O ser humano tem limitações que lhes são impostas por condições biológicas, psicológicas ou sociológicas, mas, no entanto, resguarda uma capacidade persistente de resistir mesmo às piores situações, podendo (ou não) enfrentá-las corajosamente e absorvê-las de maneira que façam sentido dentro do propósito de sua vida e que o elevem moralmente, ou mesmo que lhe dêem um propósito que até então não havia sido encontrado. 

 

Nenhuma visão antropológica pode reivindicar estar correta caso descarte da sua descrição do ser humano elementos fundamentais que diferenciam o homem de todos os outros seres da natureza. São estas algumas de nossas capacidades específicas: a de distanciar-nos de nós mesmos para avaliar não apenas as situações mas como nós mesmos agimos nas mesmas, podendo escolher, a partir de algum insight, assumir uma outra postura; o humor, que também faz parte do autodistanciamento que nos é possível; e, entre outros, a consciência e o amor.

 

A pessoa humana caracteriza-se por sua liberdade de dar forma ao seu próprio caráter, sendo responsável pelo que faz de si mesma. O que importa, nesse caso, “não são os condicionamentos psicológicos, ou os instintos por si mesmos, mas, sim, a atitude que tomamos diante deles”. Tanto o mundo exterior quanto o nosso mundo interior - com seus determinantes e limitações, inclusive - exigem de nós, constantemente, tomadas de posição… É, novamente, o fator da responsabilidade. 

 

Frankl define esta capacidade exclusivamente humana como uma abertura a uma nova dimensão, a dimensão dos fenômenos “noéticos” ou espirituais - este último termo entendido com uma conotação mais antropológica do que religiosa. Toda vez que o homem manifesta sua consciência, do mundo e de si, é a sua dimensão espiritual que ele atravessa, a mesma que lhe dá a sua capacidade de conhecer a natureza - fenomênica e psicológica - no sentido intuitivo, racional e científico. O que está, portanto, fora de diversas visões de homem, e que Frankl esforça-se por resgatar, é a autotranscendência humana: o ser humano “transcende a si mesmo tanto em direção a um outro ser humano, quanto em busca do sentido” de sua vida. 

 

Sobre a consciência, Frankl diz que não pode ser meramente identificada com o superego, pois ela, especificamente, pode se opor às convenções, padrões normativos, tradições e valores transmitidos pelo superego - assim como, adiciono eu, o superego pode pressionar para uma transgressão artificial, neurótica, de tradições e valores benéficos mas que, caso simplesmente aceitos, poderiam ser - por causa de fatores, pressões e conflitos internos ou externos - ameaçadores à consciência da pessoa. 

 

Ao desfazer também os reducionismos comuns referentes aos fenômenos da sexualidade e do amor, o fundador da logoterapia expressa algo que é de suma importância: “apenas à medida que um Eu se direciona a um Tu - por meio do amor -, é que o ego é capaz de integrar um id, de integrar a sexualidade em sua personalidade”. Ou seja, o amor é uma pré-condição para a sublimação - e não um resultado desta. 

Este me parece um assunto central, o qual desenvolverei no próximo texto, pois um dos principais problemas atuais quanto à saúde psíquica é a desintegração entre os elementos básicos constituintes do ser humano - que frequentemente entram em conflito entre si, mas, justamente por isso, suscitam uma adequada regulação racional -, a saber: os instintos sexuais, as emoções e a razão. 

 

De pouco adianta integrar a sexualidade e as emoções e descartar o fator racional como sendo fonte de “racionalização” neurótica - visão que, necessariamente, torna-se anti-humana, como se um comportamento de alguma forma mais “biologizado”, não mediado por um sentido moral, fosse curar o ser humano das tensões que a razão, que é afinal a dimensão específica e inalienável do seu ser, lhe impõe. Quando estas dimensões se fragmentam, em vez de se integrarem e terem o amadurecimento, a realização e o sentido da vida como norte, a pessoa - que só pode se realizar quando é inteira e plena de propósito - se sente dividida, e suas experiências lhe parecem algo desconexas, vazias, desprovidas de maturidade e sentido pessoal.  

 

Rômulo Cyríaco é terapeuta psico-corporal. Dedica-se atualmente à revisão de seu primeiro livro de teoria, A Descivilização do Ocidente: Da Rebelião à Redenção, abordagem interdisciplinar que conjuga sociologia, filosofia, psicologia e teologia para examinar, diagnosticar e identificar as causas das crises humanas dos tempos atuais, e, em seguida, propor a terapia, através de conhecimentos que possibilitam o reencontro do sentido da vida comumente perdido pelas pessoas em uma era de desfacelamento radical das tradições e grande desorientação.

Contatos: romuloscyriaco@gmail.com | (21) 99726-9107

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