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PSICOnews | Sócrates, a sabedoria, e a virtude

A vida e o pensamento dos gregos Sócrates (c. 469-399 a.C.), Platão (c.428-348 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.) foram de uma profundidade e de um impacto tão grandiosos para a existência humana que se tornariam uma das principais e mais sólidas colunas do que viria a ser a civilização ocidental. Como a modernidade, com sua atitude de repúdio crônico às tradições, dedica-se mais à desconstrução do que à busca e perpetuação do genuíno conhecimento, faz-se hoje necessário resistir à erosão mental causada pelos (pós-)modernos, e recuperar o mais firme contato com estes e outros filósofos, que muito nos podem ajudar a pensar e a viver. 

 

Sócrates é o descobridor da Filosofia, aquele que viria a dar à busca da sabedoria a sua mais perfeita definição. Reconheceu, desde o início, que a Filosofia tem uma importância vital para a vida humana, na medida em que nossa alma racional nos impele a pensar sobre de que maneira devemos viver… e porque, como disse o filósofo, uma vida não-examinada não vale a pena ser vivida, já que negligencia a própria essência humana. Nesse sentido, é fácil ver que há uma relação íntima entre a Filosofia e a psicoterapia: em ambas, o ser humano é chamado a fazer este movimento espiritual que lhe é exclusivo, o de distanciar-se de si mesmo para ver-se, conhecer-se, avaliar e julgar, ética ou moralmente, as suas próprias ações. 

 

O mestre de Platão reconheceu que a finalidade da vida humana é a felicidade, sendo o que todos buscamos naturalmente. Consideramos como sendo bom o que nos faz felizes, logo, julgamos ser mau o que nos faz sofrer. No entanto, é possível ter concepções equivocadas sobre o que é verdadeiramente bom ou mau, e o que é ser feliz ou sofrer, e, com isso, que se perca tempo e energia perseguindo coisas que não trarão a felicidade, nem mesmo se forem obtidas. Não é essa, mesmo, uma situação frequente? Estabelece-se como os bens finais de uma vida coisas como prazer, bens materiais, status, beleza física e aceitação social - coisas que produzem boas sensações momentâneas, mas que passam, como a névoa, e não preenchem o próprio ser -, e, assim, vive-se em uma confusa insaciabilidade. Nessa situação, o mal é, logo, identificado com a morte, a dor, o sacrifício, a pobreza e a rejeição social, e foge-se disso a todo custo, mesmo que o preço a pagar seja a verdade, e a própria alma.

 

Para um psicólogo ou terapeuta, o interesse profundo desse pensamento socrático sobre o ser humano - que se desenvolveria maravilhosamente em Aristóteles - é a fundamentação metafísica de abundantes constatações clínicas e teóricas de psicanalistas e outros pesquisadores do psiquismo como Freud e Reich, a respeito de conflitos psíquicos comuns na vida humana, entre impulsos primários e secundários. Os conflitos da neurose frequentemente são resultado de uma defesa psíquica que a pessoa desenvolve, sub ou inconscientemente, contra aquilo que ela realmente quer mas teme obter - por desafiá-la a um grau de responsabilidade e integração que ela não se sente forte o suficiente para abarcar e sustentar -, iludindo-se, para se proteger das dores da verdade, como quem olha para o outro lado, como se quisesse outras coisas, ficando presa num mecanismo infantil que só lhe aumenta a insatisfação consigo e com a vida. O secundário tem, no caso, a função de manter escondido, fora da consciência, o primário que se tornou doloroso ou difícil. Este conflito é de tal evidência e centralidade na vida humana que encontrou expressão clara e precisa também na teologia paulina, na Carta aos Romanos: 

 

"Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita. Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal. Deleito-me na lei de Deus, no íntimo do meu ser. Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros." (Rm 7,18-23). 

 

Porque o ser humano pode, com trágica facilidade, enganar-se a respeito do que é bom e do que é mau para si, convicto de que o que lhe faz mal em profundidade é bom e vai satisfazê-lo, e vice-versa, é que Sócrates considerou o exercício filosófico pleno e honesto como sendo um pré-requisito para uma legítima boa vida, para que se obtenha uma visão apropriada a respeito de o que é que a alma, que constitui a natureza do nosso verdadeiro ser, mais necessita; e para que se possa, assim, com segurança, buscar o cultivo do bem, e a purgação do mal na alma, movimento que faz o homem crescer em seu senso de auto-realização. 

Em sua própria busca, que deixou à humanidade como legado, Sócrates descobriu que o bem é, acima de tudo, a excelência moral. É preciso tornar a nossa alma tão boa e bonita quanto for possível nesta vida, em busca das virtudes de que a mesma necessita tal como o corpo precisa de alimento - a coragem, a temperança, a humildade, a prudência e a justiça - ainda que isso exija sacrifício pessoal, e implique, muitas vezes, na oposição da sociedade, que fala outra língua e (em algumas eras mais do que em outras) faz perpetuar-se não a virtude, mas o vício. Quem busca e desenvolve, com esforço, tais virtudes, não se separa de si mesmo e já conhece qual é o seu tesouro eterno, sabendo que, caso as perca de vista em troca de prazeres pequenos - o que muitas vezes fará, cedendo a pressões internas e externas - terá algumas horas de um falso preenchimento e bem-estar, que darão lugar ao abismo da ausência de sentido. Como veremos na semana que vem com Aristóteles, a alma racional do ser humano exige que as outras instâncias que compõem o seu ser - o vegetativo, o sensitivo, o instintual - sejam por ela orientadas, em realizações dotadas de finalidade e propósito. Caso contrário, o ser humano se deprime, pois sente-se como sendo menos do que é chamado a ser, rebaixando-se a nível inferior. 

 

É interessante perceber como na filosofia grega clássica pré-cristã - assim como seria no cristianismo - a realização espiritual do ser humano jamais se dissocia da ética e da moral, isto é, da conduta e do proceder, e, logo, da busca pela consciência sincera de si. Interessante também, e complementar, notar como a sociedade (pós-)moderna pretende separar estes âmbitos, tratando como dissociadas a espiritualidade, a ética e a razão, e, por isso, gerando imensa desorientação na vida humana (individual, cultural e social). As pessoas querem “fazer o que quiserem” sem parâmetros ou juízos firmes, mas sabem cada vez menos o que querem, e demoram, ainda, a associar a sua miséria pessoal a esse proceder. 

 

A sabedoria e a virtude são os maiores bens que se pode querer na vida porque são, em si mesmas, garantia de realização, podendo subsistir mesmo em meio aos maiores sofrimentos e tribulações, por serem intrinsecamente boas, realizadoras da essência do ser humano. Dizer isso é afirmar que nossa realização depende menos dos fatores externos de nossa vida, e dos diversos determinantes externos ou internos, mas de nossa atitude diante deles. 

 

Sócrates define o problema quando afirma, no diálogo platônico Górgias, que é melhor para o ser humano sofrer uma injustiça do que cometer uma, confundindo seu interlocutor. Uma pessoa que comete o mal é ignorante do fato de que a virtude é o único bem verdadeiro que poderia querer: cometendo uma injustiça - não importa que supostos “bens” esteja obtendo para si - mancha sua alma, e condena-se a uma infelicidade muito maior do que aquela que sentiria fosse ela a vítima; a infelicidade da ignorância, e da corrupção da alma, que é recipiente da moralidade intrínseca. 

 

Julgando-se criador da sua própria verdade, o homem-das-opiniões frequentemente faz o mal, ao outro e muito mais a si mesmo, crendo que faz o bem. Razão pela qual Sócrates dizia “sei que nada sei”, ciente de que, assim dizendo e portando-se, sabia e saberia muito mais do que seus interlocutores que ainda não haviam se colocado nessa posição de humildade frente à Sabedoria, que não é criada pelo filósofo, mas existe fora dele e o atrai pelo amor. Amar a Sabedoria é reconhecer a sua infinita grandeza, que torna um “nada” a tendência “opiniática” humana. “Sei que nada sei, pois tudo o que eu souber me será dado pela Sabedoria, ela mesma, e, somente então, o conhecimento que eu tiver terá plena confiabilidade”. É esse, então, o filósofo, não o homem das opiniões, mas um amigo da verdade, e da sabedoria. 

 

Como bem resume o filósofo inglês A. E. Taylor, “A ação do mal sempre se baseia numa falsa estimativa dos bens. Um homem faz o mal porque ele espera, equivocadamente, obter o bem através do mal, para conseguir riqueza, ou poder, ou prazer, e não reconhece o fato de que a culpa contraída na alma supera, em larga medida, os supostos ganhos”. Daí que uma cultura, como a (pós-)moderna, que troca todos os sinais e repudia a culpa, colocando no lugar um império dos desejos, priva o ser humano de sua própria consciência, logo, também, de toda genuína sabedoria, de toda genuína virtude… Faz com que muitos não apenas busquem o mal, crendo que querem o bem, mas repudiem o bem, crendo que rejeitam o mal. Filosofia e psicoterapia são, hoje, portanto, meios de reestruturação e reconstrução do ser; blindagem contra o fogo cruzado da desconstrução; reconciliação com a Sabedoria. 

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Rômulo Cyríaco é terapeuta psico-corporal, formando-se pelo Instituto de Formação e Pesquisa W. Reich (Rio de Janeiro). Originalmente graduado em Cinema, pós-graduado em Filosofia da Arte, dedica-se atualmente à revisão de seu primeiro livro de teoria - “A Descivilização do Ocidente - da Rebelião à Redenção” - em que realiza uma abordagem interdisciplinar, unindo Sociologia, Filosofia, Psicologia e Teologia, para fazer um exame, um diagnóstico e uma etiologia (identificação das causas) das crises humanas dos tempos atuais, e, em seguida, propor a “terapia”, através de obras científicas, filosóficas e teológicas que visam a devolver o sentido da vida comumente perdido pelas pessoas em uma era de desfacelamento radical das tradições e grande desorientação.  

Contatos: 
    romuloscyriaco@gmail.com
    (21) 99726-9107 

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