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  • Foto do escritorGuilherme Sant'Anna - Psicólogo

PSICOnews | Você consegue sentir um número?


Quase atingimos a marca de trezentos mil mortos pela covid-19 no Brasil e eu me pergunto: será que temos noção do que esse número, em sua magnitude, representa? Mais do que isso, conseguimos senti-lo? Algo estranho ocorre quando o pensamento numérico-estatístico toma conta da gente, especialmente quando os números ficam tão grandes que são distantes do nosso uso cotidiano - parece que “300.000” não representa pessoas de verdade, gente de carne e osso. Na distância da estatística, nos anestesiamos da dor da vida e dos problemas reais como eles acontecem.


Tentemos, então, colocar esse número em perspectiva: as mortes de 300.000 pessoas por covid-19 correspondem a mais de 3 Maracanãs lotados; a 100 ataques às Torres Gêmeas; a 1200 rompimentos de barragem como a da Vale em Brumadinho; a 4.225 desastres de avião como o do time da Chapecoense;


Essas comparações ajudam a dimensionar, mas são insuficientes para encarnar esse número. Se esses outros acontecimentos, com números menores, provocaram comoção, como ainda é possível não se comover agora? Vamos tentar nos aproximar de outra forma. Para entender o “trezentos mil” de carne e osso é preciso encará-lo como pais enterrados por filhos, mães que perderam filhos, irmãos falecidos, pessoas morrendo solitárias. Aquele querido seu que sufocou, aquela vizinha que te cumprimentava, o amigo de infância que você não via há tempos e não verá mais. Vacina que não chegou a tempo, leito indisponível, saúde pública precarizada. Caixões fechados, covas abertas e espremidas, fumaça de crematório. Sonhos interrompidos, amores em decomposição, gente separada por uma distância vital. Alguém que existiu, e hoje vive na lembrança.


Quando se é tocado por algo, não importa tanto o número: trezentas mil ou uma única morte, ou apenas a possibilidade de morte já bastam para nos sensibilizar. Por isso, não nos deixemos entorpecer pelos números quando se trata de existência, posto que eles têm o poder de nos embriagar e afastar, tanto da morte como de outras questões. Por exemplo, que exista alguém com uma fortuna de 184 bilhões de dólares - 184 com nove zeros à direita - pode parecer, para muitos, uma questão de número, técnica e de merecimento. Mas o número é engodo para que não se pense em termos morais e de poder. Talvez, se as pessoas sentissem o que representa um bilionário - mais do que terem a noção, o que já é raro - eles não existiriam. Talvez, se conseguíssemos sentir trezentas mil mortes, a questão seria menos estatística e mais existencial. Seria, enfim, menos morta, e mais viva.


Guilherme Sant'Anna é psicólogo (CRP 05/57577) formado pela UERJ e atualmente cursa o mestrado em Psicologia Social nessa mesma universidade. Realiza atendimentos de psicoterapia online, você pode entrar em contato com ele pelos seguintes meios:

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