• Guilherme Sant'Anna - Psicólogo

PSICOnews | “Soul” e a paixão na vida


Recentemente, a internet ficou repleta de comentários sobre o novo filme da Disney e da Pixar, Soul. Por isso, fui assistir e afirmo que, além de ser um filme bonito, ele nos ajuda a refletir sobre a vida. Se você não o assistiu e não quer spoilers, recomendo ler este texto depois de vê-lo, vai valer a pena. Tem muita coisa que pode ser dita sobre o filme, mas vou me ater àquilo que mais mexeu comigo. Vou abordar um ponto do filme que me tocou especialmente, por ser algo que vejo recorrentemente na minha vida e em meu trabalho como psicoterapeuta.


No filme, acompanhamos Joe em sua busca por ser um músico de palco. Para ele, é como se sua vida só fosse começar quando ele realizasse esse projeto. Seu trabalho como professor de música, todas suas tentativas de tocar em bandas de jazz e todo o resto lhe parecem apenas um ensaio da verdadeira vida que, ansiosamente, ele espera. Só que, logo quando ele conseguiu o convite para tocar com uma renomada musicista, ao sair pelas ruas tão animado e distraído que estava, cai em um bueiro e entra em coma.

Ironia do destino! Justo quando sua vida ia começar, ela quase termina. Mas, como o título do filme indica, sua alma vai parar no espaço do pré-vida, onde novas almas são preparadas para a vida na Terra. No filme, novas almas, auxiliadas por mentores mais experientes, estão aptas a nascerem quando, entre outras coisas, encontram sua “paixão” de vida. Lá ele se torna o mentor da alma de nome engraçado, 22, uma alma que já teve diversos mentores ilustres (Mahatma Gandhi, Nicolau Copérnico, Madre Teresa, só para citar alguns), mas nunca conseguiu encontrar sua paixão para poder viver na Terra.

Já a paixão de Joe estava muito evidente: era o jazz, e ser um músico respeitado. Porém, em uma de suas aventuras, ele volta à Terra e, em contato com 22, ele se transforma. A partir daí o filme se desenrola e, finalmente, depois de vários percalços, ele consegue a experiência mágica de tocar com Dorothea Williams, a musicista que o tinha convidado no início do filme. No entanto, ao fim do show, Joe parece desiludido. É como se ele esperasse algo muito diferente e especial ao tocar no palco, o sonho de toda a sua vida. E o que ele encontra é, sim, uma experiência boa, mas não uma mudança radical em sua vida.


O filme me fez refletir sobre como, muitas vezes, pensamos que a vida é uma pergunta a ser respondida, um problema a ser resolvido. Enquanto não respondermos à pergunta, não soubermos nosso propósito, não encontrarmos a centelha que nos acende uma paixão, seguimos buscando como se faltasse essa resposta para que pudéssemos ter paz e uma vida satisfatória. No entanto, ainda que a vida possa ser encarada como uma questão em aberto, ela é, antes de tudo, uma experiência a ser desfrutada. Søren Kierkegaard, um dos meus pensadores favoritos, diz que “a vida não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser experienciada”. E é isso que o professor aprende com a alma 22: a vida dele já acontecia muito antes da apresentação, ele é que não conseguia apreciá-la. 22 ensina que há prazer em caminhar, em conversar com os outros, em comer uma pizza, em assistir ao céu, etc. Coisas que, para Joe, eram só a vida comum. Assim, vemos que a paixão na vida tem mais a ver com um modo de viver e perceber as coisas do que com ter um objetivo específico.


Kierkegaard, inspirado pelo evangelho de Lucas, tem um discurso que aborda esse tema, intitulado “Adquirir a sua alma na paciência”. Basicamente, ele desenvolve a ideia de que a alma é algo que precisa ser adquirido, não é algo que temos simplesmente garantido. E a alma não corresponde a uma coisa temporal e mundana, mas ao que se adquire numa relação com o eterno, com o divino. “Adquirir” é diferente de “conquistar”, “salvar”, “ganhar”, ações estas que indicam uma certa disputa, e que não têm a ver com o trabalho da paciência. E, para o pensador dinamarquês, é na paciência que podemos adquirir aquilo que permanecia como possibilidade: nossas almas.

A alma é adquirida na paciência, e não “por meio de” ou “pela” paciência. Assim, a paciência é uma condição, um modo, e não uma ferramenta a ser usada com um objetivo e depois esquecida num canto. A palavra “paciência” possui uma pluralidade semântica interessante. Ao mesmo tempo em que significa “esperar, suportar”, tem sua origem em “pathos”, palavra grega que significa “emoção, afeto”, e também deu origem a “paixão”, “paciente”, “patologia”. Como Kierkegaard propõe, é no pacientar (sim, pacientar é um verbo em português, designa uma ação) que se adquire a própria alma, em espera e em paixão. Esse é o exemplo dado por Joe e 22, que encontram a paixão na simplicidade da vida, no modo que ela se apresenta a eles. Dessa forma, inspiram-nos a viver a vida mais como uma experiência do que como um problema, ou, em outras palavras, a adquirir nossas almas em paciência.


Guilherme Sant'Anna é psicólogo formado pela UERJ e atualmente cursa o mestrado em Psicologia Social nessa mesma universidade. Realiza atendimentos de psicoterapia online, você pode entrar em contato com ele pelos seguintes meios:

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