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  • Foto do escritorGuilherme Sant'Anna - Psicólogo

PSICOnews | Quando a poesia diz o que é difícil de dizer

A morte tem insistido em ocupar nossos dias. Pudera, estamos numa pandemia, no país que é o atual epicentro dela. É difícil simplesmente deixar isso de lado e seguir a vida. Em meio às minhas aflições, lembro-me de dois poemas de grandes escritores brasileiros, Machado de Assis e Vinicius de Moraes. A poesia - a arte no geral - tem a capacidade de responder às aflições de uma forma especial: nos aproximando de uma experiência, dando contornos a ela, mas sem explicá-la. Assim a poesia nos toca, podendo nos emocionar, aliviar, podendo fazer refletir ou até mesmo incomodar.


Se eu der uma explicação sobre o luto, ela não passará a beleza triste e a saudade que o poema “A Carolina”, de Machado de Assis, transmite. Do mesmo modo, posso dizer que nossa vida é frágil e passageira, mas sem a crueza e a força de Vinicius quando diz que “fomos feitos para enterrar nossos mortos - por isso temos braços longos para os adeuses, mãos para colher o que foi dado, dedos para cavar a terra”. Deixo aqui os poemas. Neste momento, eles são mais hábeis do que eu para dizer o que sinto:

A Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro

Em que descansas dessa longa vida,

Aqui venho e virei, pobre querida,

Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro

Que, a despeito de toda a humana lida,

Fez a nossa existência apetecida

E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, — restos arrancados

Da terra que nos viu passar unidos

E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos

Pensamentos de vida formulados,

São pensamentos idos e vividos.

(Machado de Assis - 1906)


Poema de natal

Para isso fomos feitos:

Para lembrar e ser lembrados

Para chorar e fazer chorar

Para enterrar os nossos mortos -

Por isso temos braços longos para os adeuses

Mãos para colher o que foi dado

Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer

Uma estrela a se apagar na treva

Um caminho entre dois túmulos -

Por isso precisamos velar

Falar baixo, pisar leve, ver

A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço

Um verso, talvez, de amor

Uma prece por quem se vai -

Mas que essa hora não esqueça

E por ela os nossos corações

Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre

Para a participação da poesia

Para ver a face da morte -

De repente nunca mais esperaremos...

Hoje a noite é jovem; da morte, apenas

Nascemos, imensamente.

(Vinicius de Moraes - 1946)

Guilherme Sant'Anna é psicólogo (CRP 05/57577) formado pela UERJ e atualmente cursa o mestrado em Psicologia Social nessa mesma universidade. Realiza atendimentos de psicoterapia online, você pode entrar em contato com ele pelos seguintes meios:

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