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  • Foto do escritorGuilherme Sant'Anna - Psicólogo

PSICOnews | O que você faz quando não faz nada?


Já passou um dia inteiro fazendo nada e sentiu culpa por isso depois? Já teve um trabalho, uma tarefa a cumprir mas não conseguiu fazer? Se sim, você não está sozinho. Aliás, talvez isso tenha mais a ver com a sociedade em que vivemos do que com cada um individualmente.


Isso de se sentir impelido a produzir o tempo todo - seja um trabalho, estudar um idioma, ganhar mais dinheiro - é algo tão comum em nossos tempos que parece estar no ar. Essa pressão é tão geral que, no início do texto, eu falei "fazendo nada" e, provavelmente, isso não provocou estranhamento. Estamos tão guiados pela produção que as diversas atividades nas quais não produzimos são simplesmente desconsideradas, são "fazer nada". Chamamos de fazer nada ficar à toa, ouvir música, pensar, andar, mexer no celular, ver tv, passear com o cachorro, etc. porque são atividades em que, supostamente, o tempo não está sendo útil, produtivo.


Em "A utilidade do inútil", Nuccio Ordine mostra diversos exemplos de pessoas que eram consideradas inúteis ou desimportantes e cujas atividades ou descobertas, tempos depois, se mostraram extremamente relevantes. Leibniz, Hertz, Galileu, Mendel, são alguns exemplos de cientistas mais levados pela curiosidade do que pela pressão de serem úteis, e suas descobertas despretensiosas revolucionaram a matemática, a física, a astronomia e a biologia.


Reduzir nossa vida apenas ao produtivo ou útil é algo que pode fazer com que realizemos muitas coisas. Mas fazer muitas coisas não garante um sentido para toda essa produção, e pode acabar por nos esgotar. Aí, conscientemente ou não, aparece a importância do ócio, do fazer nada.


Lembro de uma entrevista em que Ailton Krenak, um importante pensador e líder indígena brasileiro, comenta que o homem branco direcionou a lógica de exploração, realizada na colonização ao redor do mundo, para si mesmo. Depois de explorar tanto o mundo, hoje se explora. Assim, não consegue mais simplesmente ficar tranquilo, pois ele mesmo é um recurso a ser utilizado.


Só que uma hora a energia para seguir explorando pode acabar. Faz sentido a proliferação de síndromes como o burnout (ou estafa) e depressão atualmente: nos esgotamos de fazer tanto, e nos deprimimos por percebermos que, embora o mundo diga que tudo é possível quando se quer, querer não é poder e não somos máquinas.


Respondendo à questão do título, fazer nada é sempre fazer algo. Talvez, apenas não algo útil ou produtivo, ao menos à primeira vista. À primeira vista porque fazer nada pode ser extremamente relevante, pode ser justamente o que se precisa para conquistar a saúde num mundo que busca transformar todo o tempo de vida apenas num recurso, nos afastando da experiência de desfrutarmos do tempo, seja ele produtivo ou não.

Guilherme Sant'Anna é psicólogo (CRP 05/57577) formado pela UERJ e atualmente cursa o mestrado em Psicologia Social nessa mesma universidade. Realiza atendimentos de psicoterapia online, você pode entrar em contato com ele pelos seguintes meios:


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