• Alexandre Madruga

Comunidade na Zona Oeste sofre com falta d'água, mas tem reservatório seco desde 2009

Comunidade Vila João Lopes passou por obra do PAC, com recursos do FGTS, mas há mais de uma década a caixa d'água não recebe uma gota

A esperança chegou para centenas de famílias na comunidade Vila João Lopes, em Realengo, em maio de 2009. A Prefeitura do Rio comunicou o início de obras, através da então Secretaria Municipal de Habitação (SMH), com recursos do Programa Pró-Moradia, da Caixa e do FGTS, além do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal. A intervenção na comunidade faria implantação de redes de água, esgoto e drenagem, pavimentação de ruas, coleta de lixo, iluminação pública, obras de contenção, criação de áreas de lazer e paisagismo, construção de creche e de duas unidades habitacionais.

Na época, o então secretário Jorge Bittar, afirmou que as ações no local faziam

“parte da retomada de um processo de execução de obras fundamentais para garantir qualidade de vida aos moradores das áreas mais carentes".

Durante toda essa semana, as comunidades e ruas próximas a Estrada Manoel Nogueira de Sá, em Realengo, estão sofrendo com a falta de abastecimento. Nessa quarta-feira (16), moradores da comunidade Vila João Lopes tiveram que descer para a estrada, para conseguir água (fotos abaixo).

As obras na Vila João Lopes tiveram recursos de R$ 6,2 milhões e incluíram além da construção de uma creche, quadra poliesportiva, sede para a associação de moradores, além da implantação da Praça João Lopes, no centro da comunidade. A previsão do término era de 15 meses e beneficiariam quase mil domicílios e aproximadamente 4 mil moradores.

Com dois anos de atraso a Prefeitura do Rio inaugurou o Espaço de Desenvolvimento Infantil (EDI) Gessica Guedes Pereira, com a presença do então prefeito Eduardo Paes, além dos secretários municipais de Habitação, Jorge Bittar, e de Educação, Claudia Costin. O nome da EDI foi uma homenagem a uma das vítimas da tragédia ocorrida na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, em abril de 2011. A unidade escolar tem seis salas de atividades, sala de primeiros socorros, biblioteca, cozinha, refeitório, sala de administração, berçários, lactário, dois pátios sendo um coberto e outro descoberto, solários e área externa com brinquedos. Mas desde 2012, a esperança deu espaço para a revolta e insatisfação de toda comunidade da Vila João Lopes. A EDI foi inaugurada sem uma cisterna e como está na parte alta, sofria com constantes fechamentos e ficava sem funcionar, por conta da falta d´água. As obras da nova cisterna se arrastaram por mais de um ano até a conclusão.

As obras do Programa Pró-Moradia ajudariam quase 4 mil moradores, mil famílias e durariam três anos. Também haveria recuperação de uma grande caixa d'água de 200 metros cúbicos, já instalada no alto da comunidade da Vila João Lopes, mas o reservatório jamais recebeu uma gota.

Com tanto problema de água, Jaqueline Souza (foto no topo), dona de casa de 42 anos e mãe de cinco filhos, vive a rotina de carregar baldes ladeira acima da comunidade.

“Não vi ninguém fazer nada para colocar essa caixa d´água para funcionar. Agora, tomara que tudo dê certo porque as pessoas aqui da parte de cima sofrem. Eu não agüento mais isso. Quando chega no verão, tudo fica pior, os nervos ficam a flor da pele e as pessoas brigam por causa da água. Meus filhos sofrem, as famílias sofrem”, finaliza a moradora. Acima, a foto da casa de Jaqueline.

Outro grupo de moradores, sem envolvimento com a associação local, lutam para conseguir a chegada da substância química cujas moléculas são formadas por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio, abundante no universo, mas muito escassa na comunidade Vila João Lopes, que fica em Realengo, zona oeste do Rio. Mesmo doente, Junior Galdeado, que mora no local há quase 22 anos, se considera um grande lutador pela melhoria da comunidade, mas reclama que falta dignidade.

“A comunidade merece o melhoramento da qualidade de vida, pois aqui temos crianças, idosos, pessoas doentes ; sem água não da para ter uma vida digna”, afirmou Galdeano. Na foto ao lado, a área que depende da caixa d´água.

Percorrendo a comunidade estão as bombas instaladas para puxar a água da parte baixa (foto ao lado). Numa das vielas são 12 bombas e onde deveria ser uma vala de águas pluviais que nunca funcionou, segundo moradores, agora estão os canos dos moradores para tentar ajudar outros a terem algum abastecimento.


Também parte do grupo, uma das fundadoras da comunidade e presidente da associação de moradores na década de 90, Rosa Maria Salles, comerciante de 65 anos, sempre lutou pela melhoria e o bem estar de todos, mas reclamou da maquiagem que existe no local.

“Sempre lutei pela nossa comunidade desde a fundação até hoje, mas vejo que os problemas são quase os mesmos. A única diferença é que estão maquiados. Tenho fé que tudo tomará um rumo e irá beneficiar a todos moradores”, disse ela.

Mas nada que já está ruim, não possa piorar. Esse é o cenário vivido por outra integrante do grupo. Margor Wilson, dona de casa de 55 anos, passa as maiores dificuldades, pois mora numa parte que não tem água, mas até pagaria algo mais para ter.

“Eu sofro muito com a falta d'água. Todo mundo liga bomba e quem mora aqui em baixo como eu, fica sem água. Tomara que dê certo pra acabar com essa agonia. Não me importo se tiver que pagar taxa”, finaliza ela.

Num outro ponto da comunidade encontramos vários nos pontos de água (fotos acima). Segundo moradores, são da tubulação da caixa d´água e cada casa tem um ponto preparado, mas seguem secas há anos esperando a substância líquida, incolor, insípida e inodora. Apesar de cobrir aproximadamente 70 % da superfície terrestre, sob a forma de mares, lagos e rios, comprovamos que a comunidade da Vila João Lopes está dentro dos outros 30%.

E não pensem que a ajuda divina não foi requisitada. Mesmo orando muito para que a Prefeitura e Cedae se entendam, passaram anos e nada aconteceu. Para o pastor e morador Decio Luiz, 48 anos, a comunidade precisa ser mais beneficiada pelos órgãos públicos.

“As pessoas passam uma dificuldade muito grande aqui por causa da falta d´água, tendo uma caixa (foto acima) tão boa dessa e não é usada. Isso tem que ser visto, porque são anos que a caixa esta pronta e porque não está? ligada?”, questiona o pastor, que tem uma igreja dentro da comunidade.

O QUE DIZEM OS ENVOLVIDOS Com tantos desencontros entre município, estado e governo federal, nossa reportagem procurou todos os envolvidos para explicar porque após tantos anos, a caixa d´água permanecia sem funcionar.


Em 2018, a Companhia de Água e Esgoto do Rio de Janeiro (Cedae) informou que a obra foi realizada pela Secretaria Municipal de Infraestrutura e Habitação (SMIH) e que já solicitou à prefeitura informações sobre cadastros das redes de distribuição, elevatórias e reservatórios instalados na comunidade, a fim de elaborar ações conjuntas para dar funcionalidade à obra. Já a SMIH informou que

“se o sistema funciona é porque todas foram ligadas a rede central da Cedae, no entanto, não conseguimos levantar registros da obra desta caixa D'água, no caso se ela realmente foi feita pela gestão anterior da prefeitura ou por outro órgão estadual” e que os técnicos iriam ao local nos próximos dias para fazer “um levantamento da situação”.

Também procuramos a Caixa Econômica Federal e o Ministério das Cidades, que deram recursos para a obra. A Caixa informou que o contrato de financiamento com recursos do FGTS foi assinado em 30/06/2008 e as obras do Pró-Moradia 2008 da comunidade Vila João Lopes foram concluídas em 30/04/2014, quando houve a última vistoria do banco no local. O banco ressaltou que as obras foram executadas integralmente, possuindo os critérios de funcionalidade requeridos.

Em relação ao problema de abastecimento de água, a Caixa informou que toda a rede de distribuição e ligações domiciliares, linhas de adução e de recalque, um booster e dois hidrantes foram implantados conforme previsto. Além das obras de infraestrutura foi executada a impermeabilização de reservatório elevado pré-existente, cuja capacidade é de 200 m³.

No site (foto abaixo) do Ministério das Cidades (MC), encontramos uma planilha do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) de dezembro de 2016 com informações de que a obra foi concluída e a situação do contrato como normal. Segundo o MC,

"as obras do contrato foram concluídas com funcionalidade e dentre elas, foi executado todo sistema de abastecimento de água, tendo sido interligado à rede da CEDAE após a aprovação dos respectivos projetos executivos, mas na época, não foi apresentado o termo de compromisso da CEDAE em assumir a operação do sistema e dos equipamentos eletromecânicos".

​Para o Ministério das Cidades, a responsabilidade pela execução do contrato (da obra) é da Prefeitura do Rio e a Cedae é responsável pela operação do sistema. A nota enviada pela assessoria de comunicação da MS termina informando que

“faz-se necessário a construção de ações conjuntas (entre Prefeitura e Cedae) de forma a possibilitar solucionar o impasse”.

Com todas essas informações, voltamos a procurar a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Habitação, que respondeu através de nota:

"A SMIH esclarece que as obras de urbanização na Vila João Lopes já foram concluídas e que cabe à Cedae fazer a ligação da água para as residências". 

A Cedae voltou a ser procurada para se manifestassem sobre o caso, mas até o momento do fechamento dessa reportagem, não se pronunciou.

Enquanto isso, um aposentado de 67 anos, mas que prefere não se identificar, e também faz parte do “grupo da luta”, reconhecido pelo trabalho em prol da comunidade Vila João Lopes, tem apenas um desejo para o ano que vem.

“Quero ver a comunidade andando pra frente. São tantos problemas que nos viramos em 10, mas se a caixa d´água funcionar, teremos um grande presente em 2019”, sonha ele.
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