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Saint'Clair Silva | Democracia: de imprescindível a desprezível


A ainda novata democracia brasileira, tem sido bombardeada de acusações e de dúvidas. Isso se dá pelo fato da ineficiência pública em cumprir os seus deveres, mas também, pelo fato de que há certas vertentes políticas que ainda não engolem o fato de ser necessário a pluralidade ideológica para que um país siga bem. Há também aqueles que se regozijam ao lembrar dos tempos onde a democracia foi usurpada e maltratada, ansiando por poderes absolutistas, achando que assim, pode-se ter um Brasil forte.

Há pouco tempo eu custaria a acreditar que haveriam pessoas que não ocupam cargos de poder mas que sim, gostariam de abdicar-se dos seus direitos em prol de uma figura única e incontestável. Entretanto, tal pensamento tornou-se comum e disseminado. A propagação da ideia, inegavelmente, passou pelas fake news e a polarização atual que o país passa. Juntamente com a falta de crença na política brasileira, que foi como terra adubada para que a ideia crescesse e ganhasse proporções altíssimas, sendo apoiada por grande parte da massa popular. Entretanto, por mais que a necessidade da renovação política no país seja alta, há meios legais para que isso aconteça sem um golpe de estado, uma intervenção militar, o fechamento do congresso ou STF.

O não ensinamento de como funciona a política brasileira, do que é a constituição federal e de como ser estratégico na hora de votar para gerar mais apoio institucional ao seu candidato preferido, é também, um dos culpados do escárnio com a democracia. Pois, como entendê-la se eu nunca fui ensinado a isso? Como eu vou entender a complexidade da política se quem entende nunca me ensinou? Mas... por que ninguém me ensinou? Há projetos que clamam pelo o ensinamento da constituição nas escolas brasileiras, mas, até hoje, apenas 1 professora minha tentou explicar os pontos iniciais da constituição. Em 12 anos de estudo, apenas 2 professores se dedicaram de fato a explicarem a política brasileira.

Então, como fazer pessoas que já criaram os seus próprios paradigmas mentais entenderem que ninguém possui poder ilimitado? Exceto em casos de ditadura, como em 1964 no Brasil e em monarquias absolutistas. E a ideia de que ninguém tem poder absoluta para mandar ou desmandar que é o ponto que merece mais admiração na democracia, pois, suponhamos um ambiente ditatorial: você não elege quem você quer, você não pode contestar, você não pode, de alguma forma, tirar essa pessoa do comando e muito menos torcer para que as ideias dela de governo não sejam impostas, ou seja, você fica de mãos atadas, apenas observando (quiçá chorando) o ditador fazer tudo aquilo que é contrário aos seus ideais de Brasil. Então qual seria a vantagem disso? Só se tornaria vantagem se fosse alguém que compartilha do mesmo pensamento, pois, a oposição não precisa existir, desde que você não faça parte dela, claro.

Por exemplo, uma parte quase unânime dos apoiadores da intervenção militar no Brasil ou dos fechamentos da câmara e do STF, compartilham do pensamento de que a ditadura venezuelana é uma catástrofe, e realmente é. Tudo aquilo que não é uma democracia plena deve ser rejeitado. Mas é, no mínimo, paradoxal, os mesmos opositores do país comandado por Nicolás Maduro serem apoiadores de um golpe na democracia brasileira. Pode-se dizer então que quando é contra mim não pode, mas se for a favor, qual é o problema da oposição ser torturada? Quando a opressão não te atinge é bem mais fácil admirá-la.

Apesar dos anseios autoritários que rodeiam a política brasileira, a democracia JAMAIS deve ser contestada, mas sim, estudada com o intuito de melhorá-la. Não é culpa da imprensa a inabilidade política do chefe do poder executivo e não é criticá-la que o tornará mais hábil, muitos já fizeram isso e nunca surtiu efeito. Não é usando a força que os projetos do seu político serão aprovados. Se há dificuldade em engolir a democracia, sinto muito, nem todo mundo compartilha da sua disfagia política, aprenda a conviver com ela.


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