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CINEnews | Um Convite à Introspecção – Cem Anos de Ingmar Bergman


O cinema se tornou sinônimo de arte por causa dele, conheça a trajetória de um dos principais nomes do cinema mundial: o realizador sueco Ingmar Bergman, inspiração de personalidades como Woody Allen e Guillermo Del Toro.

Odia é 14 de julho, o ano 1918: nasce na Upsália, Ernst Ingmar Bergman, filho do meio de Erik Bergman, pastor da igreja luterana e Karin Bergman, enfermeira. Pouco se sabe sobre a infância de Ernst, mas uma coisa fica clara: a importância que ela teve em sua carreira.

Erik e Karin Bergman, 1918. Fonte: © Stiftelsen Ingmar Bergman.

Enquanto assistia aos sermões do pai na igreja, Ingmar costumava sonhar acordado e imaginar criaturas fabulosas e locais mágicos. Isso o estimulou a ter, cada vez mais, uma mente criativa e uma imaginação aflorada. Salvo raros momentos de intimidade, amor e carinho, a infância do diretor foi recheada de austeridade e severidade, esta última vinda principalmente de seu pai. Em entrevistas, ele citava ainda sua amada mãe, a avó Mait e a cozinheira da família Malla, como importantes influências tanto em sua infância quanto em sua vida.

Como dito anteriormente, Ingmar costumava se refugiar nos mundos imaginários que criava. Mas essa transição entre o real e o imaginário nem sempre era tranquila conforme contou Bergman em trecho do texto The Snakeskin (algo como A Pele de Cobra em português):

“Então, quando a realidade não era mais suficiente, eu comecei a fantasiar, entreter meus colegas com estórias extraordinárias sobre minhas aventuras secretas. Elas eram mentiras embaraçosas que falharam terrivelmente contra o equilibrado ceticismo do mundo. Eu finalmente desisti e mantive meu mundo dos sonhos para mim mesmo. Uma jovem criança querendo contato humano e obcecada por sua imaginação tinha sido ferida e transformada em um astuto e suspeito sonhador.”

Isso fez com que desde cedo, o jovem Ingmar se interessasse pela arte. Nela, ele via uma válvula de escape, uma forma de dar vida a todas as fantasias que trazia consigo, nela: tudo era possível. Foi por intermédio de sua avó, que levava Bergman ao cinema sem que seu pai soubesse, que ele teve o primeiro contato com a sétima arte e, posteriormente, desenvolveria grande interesse nela.

Retratos de Bergman. Fonte: © The Ingmar Bergman Foundation.

Anos mais tarde, Bergmanse matricularia na Universidade de Estocolmo para estudar Arte e Literatura, curso no qual nunca se formou. Na faculdade, ele começou a desenvolver suas influências Shakesperianas interessando-se mais intensamente por teatro e escrevendo sua primeira peça em 1941, chamada “Morte de Kasper”.

Posteriormente, começou a se interessar também pelo cinema de forma mais profissional, atuando até o final de sua vida como dramaturgo, roteirista, e cineasta.Dentre os temas centrais e mais recorrentes em suas obras (tanto teatrais, como escritas e cinematografadas) podemos citar: questões existenciais (como a mortalidade, a solidão e a fé inabalável), o sentimento de humilhação, uma análise psicológica e profunda da complexidade dos personagens e de famílias disfuncionais, artistas que fracassaram em suas carreiras, e a ausência de Deus que deixa o ser humano desolado e abandonado.

Trecho do filme “O Sétimo Selo”, onde o cavaleiro Antonius Block perde a fé em Deus Fonte – Página do Instagram: Cinestesia (@cine.stesia)

Outras similaridades que podemos encontrar nas obras de Bergman são: a grande maioria de seus filmes foram gravados exclusivamente na Suécia e no idioma local e em muitas de suas obras, ele trabalhou com os mesmos artistas, alguns dos casos mais notáveis incluem: o diretor de fotografia Sven Nykvist, os atores Max von Sydow, Liv Ullmann e Bibi Andersson e o figurinista Mago.

A recepção internacional aos filmes de Bergman, na época, foi muito positiva e refletiu em uma fascinação mundial pelo exoticismo escandinavo, que era composto de: um idioma incompreensível, natureza primitiva e mulheres de cabelos loiros, e a representação da nudez como algo natural.

Por isso é dito que Ingmar foi pioneiro em transformar o cinema, de fato, em uma arte, pois seus filmes rompiam barreiras e quebravam tabus da época. Ele transformava temas considerados “impuros” em artísticos, colocava nas grandes telas o que jamais havia sido visto e emocionava seu público utilizando recursos até então inusitados, como os close-ups (foco no rosto e expressão dos personagens), ângulos diferentes em suas câmeras, usando de diálogos mais complexos e reflexivos e tomadas (takes) mais subjetivos.

“Talvez você fosse melhor, se se permitisse ser quem realmente é.” Trecho do filme Persona (1966)

Em reconhecimento ao seu grande trabalho, Ingmar Bergman ganhou três estatuetas do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, pelos filmes A Fonte da Donzela (1960), Através de Um Espelho (1961) e Fanny e Alexander (1982). Concorreu três vezes ao prêmio de Melhor Diretor, com os longas Gritos e Sussurros (1972), Face a Face (1976) e Fanny e Alexander (1982) – por este último concorreu na mesma categoria também no prêmio Globo de Ouro. Além de muitos outros prêmios tão, (se não mais) importantes quanto os citados acima.

Em matéria feita por Raquel Carneiro para a revista Veja (clique aqui) em 14 de Julho de 2018, são destacados alguns dos principais filmes do sueco, seguem alguns trechos da matéria abaixo:

1) O Sétimo Selo (1957):Um dos filmes mais conhecidos de Bergman, O Sétimo Selo se passa no fim da época das Cruzadas, enquanto a peste negra e a inquisição levam a vida de muitos europeus. Em uma jornada física e espiritual, o cavaleiro Antonius (Max Von Sydow) questiona a existência de Deus enquanto precisa encarar sua própria finitude. É do filme a famosa cena em que o cavaleiro joga uma partida de xadrez com a Morte. O longa ganhou o prêmio especial do júri no Festival de Cannes e rendeu ao cineasta uma de suas quatro indicações à Palma de Ouro.

2) Morangos Silvestres (1957):Outro longa que compete pelo título de obra-prima na filmografia de Bergman, Morangos Silvestres, fala sobre memória e tempo enquanto segue a viagem de carro do professor de medicina Isak Borg (Victor Sjöstrom), que receberá um prêmio por seus 50 anos de carreira. No trajeto, ele relembra momentos da sua juventude e filosofa na companhia de sua nora Marianne (Ingrid Thulin) e de um grupo de jovens que pede carona. A produção conquistou o Urso de Ouro no Festival de Berlim e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, além de uma indicação ao Oscar.

3) Persona (1966):Já no auge da carreira, Bergman inova com o belíssimo Persona – lançado no Brasil com o infame título Quando Duas Mulheres Pecam, que não pegou entre os fãs do cineasta. Repleto de experimentações estéticas, o filme mostra a relação de Elisabeth Vogler (LIv Ullmann) e Alma (Bibi Andersson), uma atriz de sucesso que para de falar após uma crise e sua enfermeira, respectivamente. Enquanto Elisabeth se cala, Alma compensa com intensos e visuais monólogos em um complexo roteiro psicológico.

4) Fanny e Alexandre (1982):De tom autobiográfico, o filme, o último de Bergman para o cinema, é um épico familiar, que dá especial atenção ao ponto de vista de um irmão e uma irmã, da infância até a idade adulta. Filho de um rígido pastor luterano, Bergman costumava dizer que apanhava do pai quando criança – como acontece com o menino do filme. Descobertas recentes, contudo, sugerem que o irmão mais velho do cineasta era quem sofria nas mãos do pai, enquanto Bergman, no caso do filme, seria representado pela menina que observa às cenas de violência. O longa foi indicado em seis categorias no Oscar e levou para casa quatro estatuetas.

E você, caro leitor? Já conhecia o trabalho do realizador? Qual seu filme preferido dele? Comente conosco!

Parte do CINENews desta semana, foi feito com o apoio da Fundação Ingmar Bergman — originalmente, The Ingmar Bergman Foundation (Clique aqui). Eles dispõem de um acervo incrível com notícias, imagens e muitos outros materiais relacionados ao nosso homenageado. Infelizmente, não foi possível compilar tudo aqui, mas se você entende inglês (ou quem sabe SUECO!), visite a página clicando no nome original do site deles logo acima. Vale muito a pena!

Andressa Gonçalves é Colunista de cinema por paixão. Estudante de Design de Interiores por opção. E futura jornalista por vocação. Escrevo também para o Expedição Musical e James Bay Brasil. Contato: miss.gonc00@gmail.com

#Cinema

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