• Rômulo Cyríaco - Terapeuta

PSICOnews | Psicoterapia e visão de mundo: uma pedagogia para a responsabilidade


Max Weber, o sociólogo, dizia que a saúde do ser humano depende do preenchimento de seus valores mais elevados possíveis. De modo similar, o psiquiatra alemão Johannes Heinrich Schultz afirmava que quem estivesse firmado nessas elevadas camadas existenciais valorativas, que dão densidade moral a uma vida, pode sofrer sem se tornar doente, neurótico.

Seguindo essa linha de pensamento, a análise existencial posteriormente desenvolvida por Viktor Frankl foi uma tentativa, então, de abordar o ser humano com uma visão mais abrangente de sua condição e constituição integrais, absorvendo elementos válidos da psicanálise e da psicologia individual sem estreitar sua definição do humano aos determinismos e reducionismos particulares de ambas as escolas, reintroduzindo, assim, a nossa dimensão mais específica - e frequentemente negligenciada no âmbito da ciência moderna -, ou seja, a autotranscendência definidora de nossa alma racional, através de três conceitos fundamentais que abordarei gradualmente nos próximos artigos: a liberdade da vontade, a vontade de sentido e o sentido da vida.

Do ponto de vista científico e epistemológico, uma das contribuições mais importantes de Frankl, ao olhar para a história das investigações sobre o psiquismo e as abordagens dominantes, foi alertar seus leitores para os perigos da generalização dos especialistas. Isto é: quando uma ciência ou um cientista, com suas descobertas, clama por totalidade - como se, a partir dos seus termos, conceitos e experimentos, tivesse dado conta de explicar toda a constituição da vida humana e todos os fenômenos da mesma, senão do próprio universo -, “a biologia se torna biologismo, a psicologia se torna psicologismo, e a sociologia se torna sociologismo. Em outras palavras, nesse exato momento, a ciência se desfigura em ideologia”. Referia-se, assim, “àqueles que não resistem à tentação de operar generalizações exageradas no campo de suas descobertas limitadas”.

E este é, de fato, um grande (e, infelizmente, comum) perigo. Muitos empreendimentos científicos resultariam mais claros e mais facilmente assimiláveis pelo campo compartilhado do conhecimento e da prática comuns, como moeda corrente, caso seus agentes fossem humildes o suficiente para não reivindicarem para si e para seu trabalho o status de “palavra final” que invalidou todos os empreendimentos anteriores da humanidade (e também os futuros, caso estes sigam, ao seu modo, em outra direção) e todas as outras disciplinas humanas, mas o de uma contribuição parcial para o prosseguimento futuro da investigação sobre alguns dos fenômenos que compõem a realidade; e, além disso, se fizessem um esforço maior de distinguir, no fluxo de suas exposições, o que é, já, efetivamente científico, e o que são, ainda, hipóteses ou leituras alimentadas por uma determinada visão de mundo, que não possui, em si, o mesmo grau de objetividade que as descobertas confirmadas.

Esta questão tem implicações imensas, é claro. Do ponto de vista que agora nos interessa, que é o da prática psicoterapêutica, a questão da visão de mundo e o quanto o terapeuta pode exercer uma influência, nesse sentido, em seu paciente, sempre foi e ainda é muito discutida entre os profissionais da área. A meu ver, após reconhecer que a imposição de uma visão de mundo está certamente fora do escopo ético da atividade terapêutica, vejo, também, que é um ideal irrealizável a atuação inteiramente isenta das marcas de uma ou outra determinada visão de mundo; até mesmo porque, independentemente da visão pessoal do terapeuta sobre certas situações e assuntos, cada escola ou abordagem que lhe informa a prática tem, certamente, uma visão de mundo que lhe é subjacente ou, até mesmo, que nela está explicitamente manifesta.

Nesse âmbito, a meu ver, o mais perigoso é quando se assume, em teoria, uma falsa neutralidade integral, enquanto a prática (ainda que inconscientemente) exerce todo tipo de influência direta no comportamento e nos juízos da consciência do paciente sobre o mundo e a sua própria vida; o que só faz com que este acabe por absorver visões de mundo tão suavemente como bebe um copo d’água e sem percebê-lo - quando não em detrimento até mesmo da própria verdade profunda de sua consciência perante um conflito e uma situação vividos - simplesmente porque elas lhes são transmitidas embutidas em blocos de interpretação a ele oferecidos, por vezes sugeridos sutilmente, pelo terapeuta, aplicando nelas, assim, um suposto caráter de objetividade final - que é favorecido pela relação de transferência, que pode elevar, conforme maiores ou menores graus de fantasia, a figura do terapeuta a um lugar de suposta autoridade infalível - e que elas, muitas vezes, não têm realmente, caso fossem passar por um sério e amplo escrutínio, e confrontadas com outras perspectivas. Frankl, muito adequadamente, exprime a sua posição ao, primeiro, afirmar que “não devemos formar homens, mas antes possibilitá-los”, e, em seguida, reconhecer que, por outro lado, “as exigências para que venhamos a inserir conscientemente no agir terapêutico uma visão de mundo e valorações têm vindo ao nosso encontro de maneira cada vez mais urgente”.

Trata-se, em suas palavras, de uma clara tomada de posição que, por ser consciente enquanto tal, torna-se plenamente visível, também enquanto posição valorativa, para o paciente. O que resolve, nos termos de Frankl, o dilema entre a necessidade de uma tomada de posição (valorativa) e a impossibilidade da imposição, é o fato de que o conceito antropológico central que é, aí, exposto ao paciente é o da autotranscendência e da liberdade responsável do ser humano e de cada pessoa individual - como fundamento de sustentação de sua existência, de sua condição única no mundo - e de que isso, no entanto, obriga-o a avaliar os seus problemas a partir, justamente, dessa responsabilidade livre, que é dele e de mais ninguém. Dessa maneira, “como ele [o paciente] avalia, que ordem hierárquica de valores ele pode, por exemplo, erigir, tudo isso já se subtrai à influência médica”. A humanização (i.e., a realização) de um ser humano é ativa e conscientemente estimulada e possibilitada, mas o trabalho a ser feito - para encontrar e assumir o sentido de sua vida - é dele, da pessoa, que irá descobrir “os valores e as escalas de valores que se mostram de acordo com sua individualidade”. O psicoterapeuta, assim, recusa-se a “exercer uma ingerência sobre essa tomada de posição concreta ou sobre os conteúdos valorativos particulares”, o que é, na verdade, o movimento terapêutico propriamente dito, esperado como resultado, no outro, de um trabalho sério.

Se há aí, portanto, na análise existencial, um aspecto ativa e conscientemente pedagógico no trabalho do terapeuta, trata-se de uma educação para o reconhecimento primordial da responsabilidade, e isto é, decerto, uma tomada de posição. Mas, a partir desta, para que o paciente se torne responsável perante si mesmo e sua vida, é a sua pessoalidade única e irredutível que deverá pouco a pouco ganhar vigor e entrar em jogo. A meta é que o indivíduo se torne “uma pessoa com um ser próprio, um mundo próprio, uma responsabilidade própria”, e, com isso, estamos falando de uma tomada e ampliação de consciência, ativamente estimulada pelo terapeuta, mas que exige, imediata e gradualmente, que o paciente se torne agente - isto é, da tarefa singular e exclusiva de preencher a sua vida com o sentido a ser descoberto e aceito, sem fugir do seu próprio destino. O terapeuta fornece o apoio, a estrutura fundamental, para o genuíno encontro do paciente consigo mesmo e com sua consciência, e para que seja capaz de se firmar em sua liberdade e no compromisso com a realização do sentido de sua vida diante de cada circunstância, com sua vocação e seus deveres; mas o conteúdo, e a forma com que esse conteúdo tomará expressão concreta na vida do paciente, estes virão à tona conforme o seu próprio exercício concreto da liberdade conquistada. *

Rômulo Cyríaco é terapeuta psico-corporal. Dedica-se atualmente à revisão de seu primeiro livro de teoria, A Descivilização do Ocidente: Da Rebelião à Redenção, abordagem interdisciplinar que conjuga sociologia, filosofia, psicologia e teologia para examinar, diagnosticar e identificar as causas das crises humanas dos tempos atuais, e, em seguida, propor a terapia, através de conhecimentos que possibilitam o reencontro do sentido da vida comumente perdido pelas pessoas em uma era de desfacelamento radical das tradições e grande desorientação.

Contatos: romuloscyriaco@gmail.com (21) 99726-9107

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