• Rômulo Cyríaco - Terapeuta

PSICOnews | Psicanálise, psicologia individual e análise existencial


Ao longo do Século XX, duas grandes tendências de abordagem teórico-clínica em psicoterapia tornaram-se dominantes, lado a lado: os sistemas da psicanálise e da psicologia individual. Tendo como referência uma recapitulação histórico-científica realizada por Viktor Frankl - publicada na compilação de textos intitulada Logoterapia e Análise Existencial -, podemos definir estas abordagens, em suas formas respectivas de considerar e tratar os fenômenos da neurose, da seguinte maneira. Para a visão psicanalítica, a chave estaria na “repressão”, em que certos conteúdos, ao tornarem-se insuportáveis num dado contexto traumático, são pressionados pelo sujeito para o seu inconsciente. Algo que ocorre no “eu” pode tornar-se intolerável ao mesmo, e, para não colapsar - ou por um medo intenso de que isso venha a se dar - um bloco emocional-ideativo é reprimido. A partir de então, um conflito psíquico de forças se inicia entre as duas necessidades, uma secundária (repressão) e outra primária (desejo): a pressão do “eu”, para manter tal conteúdo no inconsciente, e a do conteúdo, para irromper na consciência e integrar-se no “eu”. Desse conflito, e do dispêndio de energia que o mesmo exige e provoca, surgem sintomas e traços neuróticos, nos quais o conteúdo reprimido se expressa continuamente de modo distorcido. Conforme a essa visão, o princípio terapêutico ou metodológico da psicanálise trata de tornar consciente o inconsciente, suspendendo as repressões.

Por sua vez, a psicologia individual, de acordo com o conceito de “arranjo psíquico” de Alfred Adler (1870-1937), interpreta a manifestação neurótica como resultado de uma tentativa do indivíduo de livrar-se de uma (ou, em geral, da) responsabilidade, quando o desafio pessoal de sua vida - no sentido da resposta livre e integral que a existência humana exige de cada pessoa, perante os outros e a sua própria consciência - se lhe torna insustentável, causando um sofrimento psicológico que é atenuado, neuroticamente, por uma transferência da responsabilidade pessoal que necessariamente enfraquece o indivíduo, correspondente à substituição de um objetivo primário e pleno, que exige a responsabilidade no mesmo nível, por outro inferior e artificial.

A fórmula antropológica que deriva da observação de Frankl a respeito das oposições (e complementaridades) entre as duas abordagens citadas é: ser-eu significa ser-consciente e ser-responsável. Mas o autor observa que ambas as doutrinas, em sua unilateralidade, restringem a realidade psíquica fenomenalmente dada: a psicanálise em um aspecto material, “no que diz respeito ao conteúdo das aspirações psíquicas, uma vez que ela sempre acaba por fazer valer como conteúdo possível em última análise apenas algo libidinoso”, negligenciando a significação (e até mesmo a centralidade) de outras aspirações do ser; a psicologia individual limita o acontecimento psíquico em um aspecto formal, pois os sintomas neuróticos não são, como esta abordagem costuma tratar, somente “meios para fins”, mas também expressões imediatas.

Em cada abordagem, há um ponto de partida antropológico e um caminho metodológico, e da avaliação destes é possível extrair também a meta ideológica que está explícita ou implícita em sua doutrina. O agir da psicanálise sobre a pessoa, nesse sentido, busca a adaptação entre a vida pulsional e a realidade efetiva. A psicologia individual quer ir além da adaptação, alcançando “uma configuração corajosa da realidade efetiva por parte do eu”.

A teorização específica de Frankl visa a incluir, na psicoterapia, “uma outra dimensão na qual o homem tem de penetrar” para além da adaptação e da configuração, na medida em que se quer deixá-lo se tornar saudável: “se nos perguntarmos quais seriam as categorias derradeiras que teríamos ainda de inserir em nossa imagem do homem, se ele devesse fazer jus à sua realidade efetiva espiritual e psíquica - então chegaremos à visão de que essa categoria pode ser o preenchimento da descoberta de sentido”.

A configuração da vida é certamente importante, mas representa uma grandeza extensiva, enquanto a descoberta de sentido representa a grandeza vetorial que ainda estaria faltando no movimento pleno de personalização de um indivíduo. Recordando a definição da Física, vetor é “toda grandeza que só fica inteiramente determinada quando é dado um número real que a mede numa dada unidade, uma direção e um sentido”. Trata-se, aqui, do direcionamento responsável, e pleno de um sentido pessoal, que realiza a pessoa em sua liberdade, que concretiza o sentido de sua vida, e que se segue (e é concomitante) à busca pelo autoconhecimento. A descoberta de sentido é “direcionada para aqueles valores, que todo homem particular precisa realizar na unicidade de sua existência e na unicidade do espaço de seu destino”.

Ora, pode-se incluir mais claramente uma comparação ou gradação entre as três abordagens. A psicanálise está dirigida para a causalidade e a dinâmica das repressões e liberações de catexias psíquicas, com uma ênfase no passado (e nas manifestações deste no presente), e aplica o seu foco no querer. A psicologia individual está dirigida para o futuro e para a finalidade, e o seu foco está na necessidade. Por sua vez, uma psicoterapia orientada para a descoberta do sentido “recorreria antes ao atemporal-supratemporal, a saber, a algo absoluto no sentido do caráter objetivamente valorativo”, introduzindo, assim, a categoria do dever. Frankl refere-se àquela ‘“possibilidade valorativa reservada a cada pessoa humana particular ou, melhor dito, entregue a ela, uma possibilidade valorativa que ela [e só ela] tem de preencher”, e que se tornará o dever de sua vida; ou melhor, que já é o dever de sua vida, aguardando ser encontrado e assumido.

O que parece ser desconsiderado pelas duas primeiras doutrinas avaliadas, e resgatado pela “análise existencial” proposta por Frankl, é a aspiração pessoal por validade moral, na medida em que é próprio da pessoa humana realizar-se tanto no enraizamento em si, e na realidade, quanto na autotranscendência, buscando tornar-se capaz de responder a si mesma a pergunta: qual é o sentido da minha existência? E viver à altura da resposta.

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Rômulo Cyríaco é terapeuta psico-corporal. Dedica-se atualmente à revisão de seu primeiro livro de teoria, A Descivilização do Ocidente: Da Rebelião à Redenção, abordagem interdisciplinar que conjuga Sociologia, Filosofia, Psicologia e Teologia para examinar, diagnosticar e identificar as causas das crises humanas dos tempos atuais, e, em seguida, propor a “terapia”, através de conhecimentos que visam a devolver o sentido da vida comumente perdido pelas pessoas em uma era de desfacelamento radical das tradições e grande desorientação.

Contatos: romuloscyriaco@gmail.com (21) 99726-9107

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