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  • Rômulo Cyríaco - Terapeuta

PSICOnews | Da necessidade e do esforço de construir


Dos artigos das últimas semanas, uma coisa, pelo menos, ficou bem estabelecida a respeito do ser humano, através dos filósofos gregos: nossa condição é uma que exige o esforço, não apenas aquele que é impulsionado pelos instintos sensitivos - para se obter um objeto que se deseja momentaneamente, como o esforço que todo animal faz para conseguir alimento, por exemplo - mas aquele outro, da razão e da vontade, para esculpir a alma, muitas vezes resistindo aos impulsos dos instintos para realizar um valor mais elevado. É assim (e somente assim) que o ser humano torna-se humano, humaniza-se; é assim que a pessoa se torna pessoa, personaliza-se. E é esse o primeiro chamado, a primeira vocação comum a todos nós, e que deveria definir o modo como regulamos nossas vidas.

Viu-se também que uma vida humana em que esse esforço básico e fundamental está debilitado ou é inexistente, e em que já nem mais se acredita nos valores éticos que o motivariam como sendo objetivos, então, é precisamente uma em que os valores que a alma humana intrinsecamente almeja realizar são continuamente frustrados e, em alguns casos, sequer são conhecidos (ou pior ainda, são repudiados) pela pessoa para que pudessem ser colocados no horizonte de sua vida, e é disso que resulta a “neurose noogênica” - aquela cuja gênese está no espírito, em dilemas morais e em um acentuado obscurecimento da consciência pessoal - que foi com precisão identificada por Victor Frankl, o fundador da logoterapia.

Frankl também afirmou, em sua obra, que o ser humano se diferencia dos animais por ser impulsionado por instintos, mas por ser capaz de se refrear por valores. E reforçou que a vida humana é caracterizada por aquela tensão constante, entre a liberdade da vontade, e os fatores determinantes e condicionantes. É este, aliás, o princípio da ascese cristã, fundamentada na frase proferida por Jesus quando jejuava no deserto há 40 dias e foi tentado a comer: "Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus." Na prática do jejum, então, - como em toda educação ou disciplina moral -, o ser humano está fortalecendo o seu espírito, colocando os seus instintos a seu serviço, talhando o estado bruto dos impulsos com a marca da inteligência e a forma da liberdade, fazendo, assim, desenvolver-se a sua personalidade. Sem um esforço similar, a pessoa pode se desorientar com o mandamento inverso que lhe é imposto pela dominância irrefletida dos instintos: só de pão tu precisas, no pão encontrarás toda a felicidade, e, se ainda não a encontrou, é somente porque não tens ainda pão suficiente, sendo o “pão”, aí, todos os prazeres sensuais que não se integram ao propósito racional da vida de uma pessoa e que, mais do que isso, reprimem o propósito, e fragmentam a pessoa. No Antigo Testamento, essa realidade está expressa também no relato sobre a vida de Jacó e seu irmão Esaú, que, assim desorientado, esfomeado, troca o seu direito de primogenitura - que lhe conferiria honra, nobreza e realização pessoal - por um prato de lentilhas.

Na teorização da logoterapia, Victor Frankl se opôs à dominância da visão “homeostática” na definição antropológica contida nas obras de muitos psiquiatras e psicanalistas, que tratam o ser humano como um sistema fechado, composto meramente de forças que buscam um equilíbrio interno, retirando-lhe, assim, a autotranscendência que lhe é peculiar e que inaugura em sua condição, portanto, uma tensão inextirpável. Afirma: “Contrariamente à teoria da homeostase, a tensão não constitui algo a ser, incondicionalmente, evitado, da mesma maneira que paz de espírito ou uma consciência tranquila não devem ser professadas incondicionalmente. Uma quantidade sadia de tensão, essa tensão evocada por um sentido a preencher, é inerente ao ser humano e é indispensável ao seu bem-estar mental. De que o homem necessita, primeiramente, é aquela tensão causada por um foco de direcionamento” (A Vontade de Sentido, p. 64-65).

A citação deixa claro um problema grande e crescente que estamos enfrentando, já há muitas décadas, na paisagem cultural global, e na educação de tantas gerações. Retira-se mais e mais da vida das crianças e jovens esse nível sadio de tensão, o que vem produzindo gerações inteiras que pretendem que o mundo, as pessoas ao redor e a realidade adaptem-se aos seus desejos e às suas fantasias - quando não aos seus delírios - e que são carregados de mortal angústia toda vez que a realidade lhes frustra um pequeno impulso. “O impulso é uma ordem”, e esse comando, que desconfigura e desestabiliza tantas personalidades, encontra respaldo em diversos traços constituintes da própria cultura contemporânea, tornando “estranhos”, “antiquados”, “ditadores autoritários”, aqueles que pretendem afirmar o contrário colocando algum nível de limite, autoridade e hierarquia, sejam estes pais, professores ou autores de diferentes disciplinas, qualquer um que venha a interferir na educação e na formação de pessoas.

Se um foco de direcionamento na vida humana gera uma tensão, quer dizer que as pessoas que já não se encontram mais com uma mínima capacidade de suportar tensões e esforços logo desistem de aplicar e de sequer almejar um direcionamento racional, dotado de propósito e sentido, em sua vida. O sentido, o propósito, a razão, são um peso que se lhes torna intolerável… Tudo de que mais precisam, como seres humanos, é desse direcionamento, mas fogem dele apavorados, pois seria fonte de carga emocional e racional que se acumularia a cada instante, a cada dia, a cada ano no interior de sua personalidade, orientando-anuma estruturação contínua e crescente - como é próprio de toda construção - e isso já se torna demais: a intensificação da consciência que disso derivaria lhes causaria a dor de ver o imenso trabalho que ainda precisam realizar sobre si, precisando abdicar do seu anestésico preferido, que é a auto-vitimização, individual ou de grupo, e a culpabilização do outro e da “sociedade”, para começar a andar com as próprias pernas e assumir o resultado das suas caminhadas. Não podem mais suportar a sua própria interioridade, que necessariamente começam a perceber e a sentir quando se torna mais delineada - destacada do exterior - ao longo do acúmulo de carga que deriva do propósito racional, e, por isso, precisam viver vazados, presos do lado de fora de si mesmos, buscando um constante “alívio”, que é o alívio covarde do escoamento da definição da personalidade e das escolhas - e da responsabilidade que estas chamariam à cena - pelos ralos do hedonismo, do vício e da desconstrução.

É um dos lemas do admirável mundo novo, como diz a personagem Lenina, de Aldous Huxley: “Nunca deixe para amanhã o prazer que puder gozar hoje”. Construir é um movimento que exige concentração, persistência e sacrifício - que demanda, portanto, a eventual preferência e primazia de um valor acima de um prazer -, seja a construção de um prédio ou a de uma personalidade e de uma vida preenchida de sentido. Ficam entregues às ondas caóticas dos seus impulsos, desejos e apetites, que se modificam - e até se contradizem - de acordo com o clima e a maré, e daí provém o imenso vácuo existencial que marca as multidões pós-modernas, que fogem da experiência radical (isto é, enraizadora) da individualidade e são conduzidas a ficar suspensas, distraídas por festa e revolução, sobre um abismo vertiginoso.

Chegamos a essa situação por uma quantidade imensa de fatores que se combinaram e se intensificaram desde o último século, alguns dos quais pretendo abordar, separadamente, nos próximos artigos. Há, na vida humana moderna, uma notável crise dos limites na educação, e, consequentemente, da interioridade pessoal por aqueles delimitada ou desafiada, uma desorientação ética generalizada, e um agravamento da contínua fragmentação das pessoas, com uma nova primazia dos sentimentos e dos impulsos instintuais sobre a razão - coisas que são sustentadas tanto pelos discursos quanto pelas práticas dominantes, no cotidiano tecnologizado.

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Rômulo Cyríaco é terapeuta psico-corporal, formando-se pelo Instituto de Formação e Pesquisa W. Reich (Rio de Janeiro). Originalmente graduado em Cinema, pós-graduado em Filosofia da Arte, dedica-se atualmente à revisão de seu primeiro livro de teoria - “A Descivilização do Ocidente - da Rebelião à Redenção” - em que realiza uma abordagem interdisciplinar, unindo Sociologia, Filosofia, Psicologia e Teologia, para fazer um exame, um diagnóstico e uma etiologia (identificação das causas) das crises humanas dos tempos atuais, e, em seguida, propor a “terapia”, através de obras científicas, filosóficas e teológicas que visam a devolver o sentido da vida comumente perdido pelas pessoas em uma era de desfacelamento radical das tradições e grande desorientação.

Contatos: romuloscyriaco@gmail.com (21) 99726-9107

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