• Rômulo Cyríaco - Terapeuta

PSICOnews | Aristóteles x A modernidade psicotizante


Acompanhando os pensamentos de Sócrates a respeito da virtude, Aristóteles, algumas décadas depois, também afirmava que “os verdadeiros bens do homem são os bens espirituais, que consistem na virtude de sua alma”, estado no qual, sobre os impulsos imoderados da alma sensitiva, intervém a atividade da alma racional, especificidade do ser humano em meio à natureza.

Há uma exigência de virtude ética enraizada na alma humana, que se traduz na necessidade de uma integração dos diferentes aspectos ou dimensões que constituem a pessoa para que sejam unificados e ganhem sentido pessoal. Essa exigência é inextirpável, apesar de poder alienar-se - e tornar-se como que anestesiada - ao longo de uma vida deseducada, dada ao vício, e norteada pela cobiça de bens materiais, reconhecimento social e prazeres desregrados; coisas, estas, que fragmentam uma pessoa e lhe obscurecem a razão: nesse estado, é possível que, apesar de fazer alguns esforços dispersos e sentir o desejo de desenvolver-se ética e moralmente, não possa mais enxergar as inconsistências e auto-contradições que desorientam os seus muitos pensamentos e práticas. (A pessoa pode, inclusive, sentir-se e dizer-se virtuosa, gabar-se sobre como é boa, sem notar que está apenas mais uma vez cedendo ao vício do seu orgulho e de sua soberba, colunas mestras de sua irracionalidade). Como um ser humano tem, em sua complexa natureza, ambas as potências - de desenvolver-se virtuosa ou viciosamente - muitos fatores concorrem em seu crescimento para fazer prevalecer uma ou outra, por exemplo: a educação que receberá da família e da sociedade no entorno, os estímulos dominantes da cultura vigente, e as disposições interiores com que irá aderir ou resistir, com sua vontade ou com um enfraquecimento da mesma, a cada fator determinante.

Platão, igualmente, reconheceu as forças irracionais que operam no ser humano, e que são capazes de se opor à alma racional, inaugurando o conflito básico humano. Mas sua solução para o problema era menos realista - mais, digamos, intelectualista - do que a de Aristóteles, para quem não se tratava de “recalcar” (para usar um termo moderno psicanalítico) os impulsos e os sentimentos da alma sensitiva, mas de moderá-los, a um grau no qual possam ser integrados com os movimentos e as essenciais necessidades da alma racional que constitui a parte mais elevada do homem e o realiza enquanto tal. A questão é fácil de visualizar: esta parte mais elevada está ainda enraizada na totalidade do ser, e, portanto, é não em detrimento total das outras partes, mas com elas - isto é, moldando-as, colocando-as ao seu serviço - que deve ganhar a primazia na vida da pessoa, conduzindo-a numa existência plena de propósito. Compare os impulsos ou instintos brutos que fazem pressão na vida humana a filhos rebeldes: expulsando-os de casa não se resolve (mas, somente, agrava-se) o problema; deve-se, em vez disso, mantê-los próximos, dialogar com eles e educá-los, para que, esculpindo racionalmente, com esforço pessoal, o que neles ainda é bruto, vençam a rebeldia e tornem-se pessoas maduras que venham a colaborar consigo mesmas, não mais agindo de maneira contraproducente.

Aristóteles vê a virtude como ausente onde quer que haja excesso ou falta nas manifestações da alma sensitiva no homem. A virtude implica em uma justa proporção, ou em um “meio-termo entre dois excessos”. Sentimentos, paixões e ações devem ser administrados tendo em vista a sua justa medida, em uma posição intermediária, capaz de se integrar à condução racional da vida de cada pessoa específica. Importante enfatizar - como alerta Giovanni Reale, estudioso do filósofo grego - que a “justa medida” não é uma espécie de neutralidade ou de “mediocridade”, mas “está nitidamente acima dos extremos e representa, por assim dizer, sua superação”, é “um ‘ápice’, ou seja, o ponto mais elevado da perspectiva do valor, já que marca a afirmação da razão sobre o irracional”. Nas palavras do próprio Aristóteles, “em relação à sua essência e à razão que estabelece sua natureza, a virtude é uma posição intermediária; mas, em relação ao bem e à perfeição, ela ocupa o lugar mais elevado”.

O filósofo reconhecia que é através do hábito que as virtudes éticas se estabelecem, e perpetuam-se em nós, ou seja, pelo exercício consciente e voluntário que traduz a potencialidade racional em ato concreto; é a sucessão de atos virtuosos que torna uma alma amiga da virtude. É pela realização de sucessivos atos justos que a virtude da justiça se torna estável e “mais tarde irá nos ajudar a realizar atos de coragem”. O hábito da virtude clarifica a percepção da alma quanto ao bem e ao mal, e, por isso, resulta gradualmente na coragem, pois o indivíduo com a consciência aguçada e um maior e mais genuíno (isto é, sincero) autoconhecimento não abrirá concessões - por objetivos artificiais - diante de possíveis más escolhas, ainda que a firmeza na virtude lhe acarrete, por exemplo, eventuais efeitos colaterais socialmente prejudiciais, como a rejeição dos outros, ou a perda de um aparente benefício social ou material. E, caso abra uma concessão prejudicial ao seu enraizamento na verdade pessoal, orientado por desejos secundários, será também gradualmente mais capaz de percebê-lo, e de corrigir-se em seguida. Inversamente, o vício - que é o hábito do auto-engano - torna a percepção da alma turva: a alma viciosa, pela sucessão de atos e pensamentos desordenados, torna-se, por sua vez, inclinada à desordem, propensa a uma contínua fragmentação de sua paisagem interior.

Contrapondo o estudo de Aristóteles ao mundo moderno, entende-se, pelo contraste das duas cosmovisões, uma das maneiras pelas quais a atual cultura pretende manter o ser humano separado de si mesmo, e sob o mais completo controle do poder político global que opera “em rede” e de maneira “molecular”: pela afirmação repetida de que tudo é mero constructo cultural sem raízes fixas em algum outro plano, politizando todos os aspectos da existência; e pela concomitante negação de tudo o que é universal, essencial, divino e eterno no ser humano, precisamente aquilo em que está enraizada e em que ganha consistência a sua alma racional - a sua especificidade-, sufocando suas exigências que são supraculturais e suprahistóricas, e que devem, no diálogo e na batalha com cada época e situação, encontrar a sua forma de vir à tona e ganhar expressão concreta na cultura e na história, na vida pessoal e livre de cada homem. Hoje, assim sufocadas, com a vida desenraizada, ansiosa e estreita, as novas gerações tendem a ser estereotipadamente politizadas, prontas para gritar e protestar em massa contra seja-lá-o-que-for que lhes pareça injusto pelo aperto de botão das mídias que estão televisionando a “revolução”; mas com individualidades flácidas e despropositadas, vazias de humanidade e de genuínas qualidades morais, apavoradas pelo medo inconsciente, mas persistente, da perda total do sentido da vida, o qual insistem em rejeitar contra a sua própria vontade mais profunda.

Basta ver, por exemplo, como os filósofos desconstrucionistas mais influentes na paisagem intelectual contemporânea insistiram, como pré-socráticos da pior espécie, na ideia de um “puro devir” dissociado do Ser, de um “fluxo desejante” sem referência a nenhum centro, e de uma horizontalidade sem nenhum atravessamento vertical, disseminando um “pensar” dispersivo e desorientador, rebelde, anti-integrador e, por isso mesmo, anti-aristotélico, repleto de imaginações que - a não ser em vivências mentais psicóticas ou pré-psicóticas - simplesmente não se podem confirmar de maneira alguma na observação da realidade e na experiência concreta, na qual ambos os planos estão sempre e invariavelmente em constante relação (ou embate), e na vida humana em que os mesmos planos exigem da pessoa, em sua liberdade característica, uma apropriada regulação para que o que é superior ganhe expressão e primazia e a humanize de modo integrado. A negação da realidade, da tensão basilar da condição humana e dos esforços que esta exige, degenera a vida psíquica do homem, o que no passado foi testemunhado por psicólogos e psiquiatras na experiência clínica com os fenômenos da (pré-)psicose; na pós-modernidade, quando se quer elevar essa negação à condição de status quo cultural, o que se passa a testemunhar e a enfrentar é, portanto, uma vida social amplamente psicotizante, o que coloca diante do indivíduo que vive o processo de autoconhecimento, integração e realização, um desafio muito maior.

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Rômulo Cyríaco é terapeuta psico-corporal, formando-se pelo Instituto de Formação e Pesquisa W. Reich (Rio de Janeiro). Originalmente graduado em Cinema, pós-graduado em Filosofia da Arte, dedica-se atualmente à revisão de seu primeiro livro de teoria - “A Descivilização do Ocidente - da Rebelião à Redenção” - em que realiza uma abordagem interdisciplinar, unindo Sociologia, Filosofia, Psicologia e Teologia, para fazer um exame, um diagnóstico e uma etiologia (identificação das causas) das crises humanas dos tempos atuais, e, em seguida, propor a “terapia”, através de obras científicas, filosóficas e teológicas que visam a devolver o sentido da vida comumente perdido pelas pessoas em uma era de desfacelamento radical das tradições e grande desorientação.

Contatos: romuloscyriaco@gmail.com (21) 99726-9107

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