• Rômulo Cyríaco - Terapeuta

PSICOnews: Autoconhecimento e “auto-desconhecimento”


As psicoterapias são recursos valiosos aos seres humanos em sua busca e necessidade de autoconhecimento. Afirmar isso nos faz reconhecer, imediatamente, que seres humanos podem viver - às vezes, toda uma vida - em profundo “auto-desconhecimento”. A pessoa vive consigo mesma, mas pode viver fugindo de si, e do sentido de sua vida, desperdiçando sua energia nesse doloroso processo. O fato é que esconder-se de si mesmo - que é esconder-se da verdade, conforme esta quer se mostrar à nossa razão, cognição e psique - dá trabalho, e trabalho requer energia. O desarranjo que disso deriva é, às vezes, compensado com uma aparência artificial e eufórica de alegria, com o recurso das drogas ou de outros hedonismos e futilidades, por exemplo, ou com uma incessante reclamação, com tendência a transferir a culpa da situação para os outros.

A razão é a faculdade que nos permite conhecer, a realidade e a nós mesmos, mas cujo mau uso nos permite, também, mantermo-nos enganados: muitas vezes, há uma dor envolvida em reconhecer a realidade - tanto a passada, quanto a presente - e em ver de frente a verdade, e, por isso, a psique humana se envolve em uma série de jogos de auto-engano.

Esta breve introdução é suficiente para nos habilitar a perceber a seguinte realidade exclusivamente humana: todos nós, sem exceção, estamos em uma relação moral, espiritual, com a verdade. Ou fugimos dela, enredando-nos numa rede de mentiras e ilusões; ou a desejamos, no entanto sem aceitá-la quando nos deparamos com ela, inventando desculpas; fazemos distorções dela, para que a tenhamos só parcialmente, não querendo viver nem sem ela, nem com ela; ou, então, rendemo-nos ao encontro com ela e aceitamos os seus desafios, dificuldades e conflitos, para sermos transformados nessa relação, nesse “corpo a corpo” com a verdade.

Trata-se de algo que não se vê em nenhuma outra dimensão da vida natural, nem vegetal, nem animal. É nesse plano, espiritual, que ocorre a especificidade da vida humana, e de acordo com o que vivemos no mesmo - para o bem ou para o mal - é que regulamos a nossa relação com a realidade como um todo. É isso que faz com que um filósofo como Roger Scruton afirme que a vida humana não se passa inteiramente no universo investigado pelas ciências naturais, mas estende-se para um Lebenswelt, ou “mundo da vida” - termo que remete à fenomenologia de Edmund Husserl - isto é, o mundo que é formado pela nossa consciência.

Estamos, como seres humanos, enquadrados na classificação geral de “seres vivos”, assim como as plantas e as outras espécies animais, e, por isso, existem aspectos - biológicos, instintuais - de nossa vida que são similares à de outros seres. No entanto, o estudo e o conhecimento desses aspectos não é suficiente para explicar e dar conta dos fenômenos mais específicos e elevados da vida humana, razão pela qual a compreensão completa de nossa realidade demanda não apenas as considerações físicas, mas também as metafísicas. Somos feitos do mesmo barro, mas temos um sopro de vida superior, que faz com que, vivendo na terra - no tempo, na história - e fazendo parte da natureza, sejamos atravessados por uma outra dimensão que nos coloca, simultaneamente, para além da natureza: a dimensão racional e espiritual, que nos confronta com a possibilidade do conhecimento da realidade, com nossas capacidades especulativas e de abstração, com nossa inata busca de sentido, com nossos valores morais intrínsecos, e com a nossa profunda aspiração pela beleza, pelo bem e pela verdade. Na natureza, sim, mas também para além dela. Trata-se da “autotranscendência” do ser humano.

Essas especificidades podem nos orientar para uma vida boa e real (e, até, moralmente plena) mas também representam o aspecto trágico da condição humana: somos - pelos mesmos motivos que nos fazem seres superiores no conjunto da natureza - suscetíveis ao erro espiritual que nos rebaixa e irrealiza, e nos faz egoístas, maus, mentirosos, frustrados, e, por tudo isso, miseráveis. Além disso, enraivecidos, conosco e com o mundo, quando frustramos em nós aquilo que mais desejávamos realizar, isto é, a plenitude da bondade, do belo, do verdadeiro, e de tudo o que é moral.

As plantas não resistem à essência de sua alma vegetativa, assim como os animais não resistem aos instintos de seu corpo, e de sua alma sensitiva. Já a condição humana é mais complexa: a liberdade que nos vem precisamente de nossa alma racional permite, além da autotranscendência, a auto-negação, além da responsabilidade, a irresponsabilidade, isto é, tanto a aceitação quanto a rejeição daquilo que nos é mais fundamental e indispensável no sentido espiritual - aquilo que configura a essência humana e pessoal, e que clama por realização ao longo de nossa vida. Precisamos de oxigênio, bebida e comida, e temos poderosos instintos sexuais, assim como os animais. Mas precisamos, tanto quanto ou ainda mais, de “algo além”, que é aquilo que aplica uma razão - sobre-natural, ou “além-natural” - à vida natural do homem, para que a vida seja vivida com sentido e dignidade. Poderíamos dizer que o ser humano não busca apenas “sobreviver”, no sentido material e instintivo, mas “viver sobre”, realizando o sentido e a finalidade, resguardando o mistério e a dignidade, de sua pessoa.

Mas existem estes conflitos e tensões insolúveis na condição humana: entre a pressão dos instintos naturais e a finalidade dos nossos valores morais intrínsecos; entre os determinantes históricos, socioculturais, biopsíquicos, e a essência espiritual, dotada de liberdade; entre o influxo das más inclinações da própria alma e as solicitações profundas de nossas mais elevadas (e irredutíveis) aspirações.

A alma humana é, ao mesmo tempo, lugar e fonte dos empreendimentos heróicos, dos auto-sacrifícios feitos por amor, do desejo da virtude e da luta pela santidade, e lugar e fonte de vilezas e baixezas inomináveis. Essa realidade complexa da condição humana, cuja tensão é inextirpável, é reconhecida por muitos filósofos, dos gregos pré-cristãos - aos quais me referirei no artigo da semana que vem - aos conservadores e liberais clássicos modernos, como Thomas Hobbes, Adam Smith, Edmund Burke e F. A. Hayek, entre outros. Na tradição bíblica cristã, essa tensão é revelada como fruto do que se chama “pecado” ou “queda original”, evento que deu ao ser humano uma espécie de “segunda natureza”, decaída, que vive em permanente conflito com a “natureza primária” - aquela que, um dia, esteve em comunhão plena com Deus, e que a essa comunhão deseja, mais que a tudo, retornar.

Por isso, é preciso que, no processo pessoal de reconhecimento da verdade, sejam assumidas essas características e limitações intrínsecas da real condição humana, e, em seguida, seja despertada a consciência - e a vontade - para uma tomada de atitude, livre e responsável, diante da tensão e do conflito entre as boas e más tendências que duelam no interior do indivíduo, para uma educação, ou regulação, apropriada à realização do indivíduo como pessoa. Ou seja: é preciso que haja esforço pessoal, e uma busca da melhor disposição para fazê-lo.

Assim como a pedra bruta tomada pelo artista é uma escultura formosa em potencial, e deve ser talhada para sê-lo em ato, nossa alma é uma pedra existencial bruta cuja essência é um desenho, um projeto escultural, que aguarda a nossa colaboração no tempo e o nosso esforço pessoal livre para que venha a formar-se e assemelhar-se a si mesma, assumindo a responsabilidade desse movimento (que suscitará reações da realidade circundante). Razão que levou Aristóteles, por exemplo, a considerar o devir- mudança, movimento, transformação - como uma “progressão para a forma”, que leva à plenitude do ser, “a via que as coisas percorrem para se atualizar, para ser plenamente o que são, para realizar sua essência”. Nós temos realmente uma essência, mas precisamos querer e suar para realizá-la, e lutar contra as forças que resistem à sua realização: podemos aceitar o nosso devir, atrasá-lo, ou negá-lo. Aliás, grande parte dos sofrimentos psíquicos das pessoas é gerado por diferentes formas de enganar-se e frustrar esse empreendimento básico da própria existência humana - pela eventual predominância das forças e arranjos contrários ao mesmo -, que não diz respeito em primeiro lugar a possíveis conquistas materiais, mas a uma conquista de si mesmo e de sua responsabilidade perante o próprio ser.

Deve-se ter a consciência de que a “pedra bruta” do espírito humano é - diferentemente da pedra literal que o escultor vai talhar - uma pedra que, por natureza, resiste ao esforço do seu escultor, dificultando-lhe o trabalho, desfazendo, às vezes, suas conquistas. Move-se, frequentemente, na direção errada, desvia dos golpes racionais do artista que lhe quer fazer bela. Ela é pesada, e, às vezes, parece querer ficar em seu estado embrutecido, não quer encarar de frente o seu desenho original (que almeja tornar-se desenho final - pois, sim, a essência das coisas é também o seu fim). Sente dor em se transformar, pois, para tal, precisa passar pela humilhação de ver e admitir os seus defeitos intrínsecos, sua brutidão, e reconhecer que não é tão bela, perfeita e auto-suficiente - nem tanto a absoluta vítima - quanto julgava ser. A peleja é difícil, e por isso cada pessoa tem necessidade de auxílio, não tem em si mesma todas as forças necessárias para empreender esse trabalho, e essa árdua conquista, em todas as suas etapas - em especial, se cresceu em ambiente familiar e sociocultural impropício à luta própria da vida humana, tornando-se, talvez, arraigadamente resistente.

No plano humano, é, de maneira conjunta, pelo esforço pessoal e pela relação com o outro que podemos crescer em autoconhecimento, e autossuperação. A disposição para a relação sincera consigo pode habilitar a pessoa, gradualmente, a aceitar a dor e o sofrimento de olhar para si com maior sinceridade, acolhendo a potência transformadora, e a dor curativa, do olhar face a face para a verdade - que poderá regular tanto as arrogâncias e soberbas, quanto a negação covarde da própria força; tanto a capacidade de ceder, quanto a de firmar-se e afirmar-se, ativa e corajosamente, conforme o que solicitar cada relação e situação.

Nas relações sociais, o outro também tem seus defeitos e imperfeições, mas a fricção e o “corpo a corpo” subjetivo das relações permitem que a presença do outro, com o seu olhar de fora, faça-o capaz de ver ou despertar em nós coisas que estavam obscurecidas à nossa própria percepção, nos pontos cegos de nosso caráter e de nossos esquemas cognitivo-psíquicos. As reações do outro, assim como as nossas, por vezes, permitem-nos ver algo de nós mesmos que ainda não havia sido admitido em nossa consciência. Ser responsável, a partir daí, nada mais é do que ser capaz de responder à verdade conhecida e integrá-la à personalidade - em vez de, covardemente, dispersar-se e confundir-se para fingir que não a viu, e seguir, por exemplo, tendo o mesmo tipo de comportamento inadequado, consigo, com o outro, e com a vida.

É a disposição pessoal para o autoconhecimento que pode, também, levar a pessoa a procurar um terapeuta como auxílio nesse processo, sabendo que se trata de uma relação propícia para tal fim. No cotidiano, frequentemente as pessoas não são sinceras o suficiente, nem no dizer, nem no agir, buscam mais agradar ou fugir dos conflitos, e preferem, em vão, reclamar de nós em privado; ou, então, reagem impulsivamente, esbravejando sem aquela racionalidade que nos ajudaria, talvez, a não apenas buscar ser um pouco melhores e a ajustar nossos defeitos, mas a integrar uma nova percepção à nossa consciência - para nos tornarmos um pouco mais inteiros, senão, menos fragmentados. E é o esforço pessoal que será necessário, ainda, no processo terapêutico, caso a pessoa realmente queira vivê-lo - pois, caso contrário, terá a tendência de fugir, encontrando todo tipo de subterfúgios para romper a relação com o terapeuta. Verá nas imperfeições do terapeuta motivo para ir embora - sem perceber que, na maior parte das vezes, está indo embora por não querer ver as suas.

O terapeuta/analista é como um amigo sincero e desinteressado o suficiente para ser capaz de sustentar a amizade tanto na concordância quanto no necessário conflito; que pode ser encontrado como que “sob encomenda”; e que, além disso - o que é mais importante - possui um olhar habilitado, formado e treinado para ver a pessoa, o estado atual da sua paisagem interior, e tudo aquilo que ela mostra e revela de si - a quem lhe observa atentamente - sem nem mesmo perceber, ou não com a devida clareza e intensidade. E que, no desenrolar da relação, poderá ajudá-la a reintegrar os elementos que faltavam para a sua unidade interior. Unidade, esta, que proverá a força para que cresça no esforço pessoal, e consiga re-esculpir a sua alma, suportando, mais e mais, a dolorosa visão do seu desenho original, sempre mais ou menos distante do que ela é agora, até que este venha a agradar aos olhos como um modelo que motiva o suor, as satisfações, decepções e retomadas do trabalho da vida.

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Rômulo Cyríaco é terapeuta psico-corporal, formando-se pelo Instituto de Formação e Pesquisa W. Reich (Rio de Janeiro). Originalmente graduado em Cinema, pós-graduado em Filosofia da Arte, dedica-se atualmente à revisão de seu primeiro livro de teoria - “A Descivilização do Ocidente - da Rebelião à Redenção” - em que realiza uma abordagem interdisciplinar, unindo sociologia, filosofia, psicologia e teologia, para fazer um exame, um diagnóstico e uma etiologia (identificação das causas) das crises humanas dos tempos atuais, e, na segunda parte, propor a “terapia”, através de obras científicas, filosóficas e teológicas que visam a devolver o sentido da vida comumente perdido pelas pessoas em uma era de desfacelamento radical das tradições e grande desorientação.

Contatos:

E-mail: romuloscyriaco@gmail.com WhatsApp: (21) 99726-9107

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