• Rômulo Cyríaco

PSICOnews: O que é o ser humano? A pergunta fundamental


Uma pessoa que procure terapia, num dado momento de sua vida, para apaziguar ou curar seus problemas emocionais e psíquicos, tem diante de si um imenso leque de abordagens e técnicas existentes para que profissionais a auxiliem. Na história do estudo e da clínica sobre o psiquismo humano, há um grande e multifacetado debate sobre que abordagens são, do ponto de vista de sua racionalidade teórica, e de seus resultados técnicos e práticos, as mais acertadas. No entanto, no meio desse debate, e dessa grande variedade, a questão mais fundamental muitas vezes passa despercebida, tem sua importância reduzida, ou é mesmo ignorada, qual seja: a visão que cada abordagem tem a respeito do ser humano e do que nos define essencialmente - isto é, a sua “antropologia filosófica”, que vai determinar, em grande parte, tanto as interpretações quanto as intervenções do analista ou terapeuta diante do que o analisando apresenta.

Sabemos que, em teoria, mesmo conclusões equivocadas a respeito dos fenômenos da realidade podem ser apresentadas de maneira que pareçam fazer sentido, pois, nesses casos, o enunciador elimina de seus raciocínios toda uma dimensão da existência que, caso considerada, transformaria os mesmos raciocínios desde a sua base, possivelmente revelando inconsistências que não eram notadas quando se reduzia a interpretação de toda a existência à especialidade daquele ramo da ciência ou da investigação psicológica, por exemplo. “A razão tem nariz de cera”, diz-se, e facilmente aponta para onde queremos que aponte. Porém, mais importante que os nossos desejos, é a realidade objetiva ela mesma. É preciso, por isso, buscar ter a segurança mais plena possível quanto às bases, aos fundamentos primeiros, de nossa visão de mundo e de nossos conceitos sobre o homem, para que estejamos também seguros quanto às nossas conclusões, interpretações e intervenções. Bases equivocadas, em geral, geram conclusões equivocadas, ou somente parcialmente corretas - enquanto escondem, debaixo de sua aparência de correção, enganos tremendos, e até mesmo perigosos à integridade humana.

É por esse motivo que abordagens que, na prática, provam possuir alguma eficácia terapêutica, como é o caso de grande parte delas - umas sendo, realmente, mais eficazes que outras, por uma série de razões - muitas vezes podem negligenciar aquilo que é central na pessoa, aquilo que constitui, na verdade, a sua própria essência humana, e a sua condição no universo. Resultados clínicos parciais podem estar sendo obtidos, comprovando a eficácia terapêutica das técnicas utilizadas - sintomas sendo aliviados, traços de caráter sendo transformados - enquanto, simultaneamente e por outro lado, enganos de percepção e prejuízos à consciência da pessoa em tratamento podem estar sendo mantidos e perpetuados, sem que nenhuma das partes o perceba, caso a visão antropológica do terapeuta (e de sua abordagem) esteja deturpada, incompleta ou equivocada.

Tal coisa seria ao mesmo tempo resultado e reflexo de uma negligência, de grande escala, comum nos tempos modernos e mais ainda atualmente: deixamos, como sociedade, de fazer as perguntas essenciais e colocá-las como centro de nossa orientação na vida. Como, por exemplo, estas aqui:

O que é, essencialmente, o ser humano? Qual é a condição específica do homem na existência, e na natureza? O que configura o ser humano especificamente, diferenciando-o dos outros seres, vegetais e também animais? Qual é o sentido da vida?

Se uma pessoa vive sem as respostas corretas a essas perguntas, ou, pior ainda, com respostas equivocadas às mesmas influenciando - ainda que inconscientemente - as suas decisões e planos, as chances são grandes de que viva uma vida que gradualmente se esvazie de sentido, e se agrave em frustração e vazio. Essas perguntas são as primeiras a serem respondidas - de fato - para que uma pessoa comece a ser capaz de responder a outras perguntas, mais particulares, que são estas:

Quem sou eu? O que estou fazendo nesse mundo? Qual é minha vocação? O que me realiza? Em que sentido estou indo, aonde quero - ou devo - chegar? Qual é o sentido da minha vida, em particular?

Nesta coluna, pretendo desenvolver estes e outros tópicos vizinhos, tendo como referência no âmbito psicológico-terapêutico principalmente a psicanálise freudiana, a gestalt-terapia de Fritz Perls, a terapia psico-corporal de Wilhelm Reich, e, em especial, a logoterapia do austríaco Victor Frankl, que, a meu ver, corrige - de modo valioso - enganos epistemológicos, antropológicos e filosóficos das abordagens anteriores, que, apesar disso, contêm descobertas, técnicas e propostas de grande utilidade, precisa eficácia terapêutica e promissora validade científica.

Podemos fazer a seguinte analogia: as muitas abordagens disponíveis, com suas diferentes técnicas e teorias, são como os pneus que podem - e devem - ser colocados em um carro para que este possa andar, e nesse sentido não são apenas úteis, mas - as mais eficazes e teoricamente corretas - fazem-se mesmo indispensáveis. Porém, uma adequada antropologia filosófica, isto é, a correta e mais completa visão sobre a condição humana, é como o alinhamento e o balanceamento, sem os quais mesmo o carro com lindos e novíssimos pneus pode se desgovernar e gerar acidentes e perdas. Aliás, não é o que falta mais gravemente ao ser humano moderno, o alinhamento e o balanceamento de seus aparentemente belíssimos pneus? Avança admiravelmente a tecnologia e a técnica, sim; porém, numa paisagem humana cada vez mais vazia e caótica, e menos provida de sentido.

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Rômulo Cyríaco é terapeuta psico-corporal, formando-se pelo Instituto de Formação e Pesquisa W. Reich (Rio de Janeiro). Originalmente graduado em Cinema, pós-graduado em Filosofia da Arte, dedica-se atualmente à revisão de seu primeiro livro de teoria - “A Descivilização do Ocidente - da Rebelião à Redenção” - em que realiza uma abordagem interdisciplinar, unindo sociologia, filosofia, psicologia e teologia, para fazer um exame, um diagnóstico e uma etiologia (identificação das causas) das crises humanas dos tempos atuais, e, na segunda parte, propor a “terapia”, através de obras científicas, filosóficas e teológicas que visam a devolver o sentido da vida comumente perdido pelas pessoas em uma era de desfacelamento radical das tradições e grande desorientação.

Contato: romuloscyriaco@gmail.com

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